quinta-feira, junho 08, 2006

DE AMORES BUCÓLICOS DA DÉCADA DE 80, NO INTERIOR MINEIRO

Uma vez, nos idos dos anos 80, na minha Muriaé, um amigo meu, desses amigos que a infância traz e a maturidade esparsa passou por uma situação um tanto quanto vexatória.
A adolescência traz seus desejos, nem sempre saciados e, quando isso ocorre, muitas vezes a noite traz opções para suprir essa ausência de prazer.
Pois bem, esse meu amigo estava namorando uma menina evangélica e daquelas bem radicais para quem o sexo era uma coisa sagrada após o casamento e demoníaca antes desse.
Os dois, com seus dezoito anos de idade tinham visões diferentes da vida; ela ambicionava o casamento mais precoce possível, de preferência com um rapaz “honesto e trabalhador”; já esse meu amigo estava no primeiro período de Engenharia e a sua opção era por primeiro formar-se, depois se solidificar no mercado de trabalho para, depois, poder constituir família.
Essas disparidades levavam o romance a uma situação extremamente comum e antagônica. Beijos e carinhos até as dez horas da noite, depois namorada em casa e fim de noite com as meninas mais liberais ou, na ausência destas, o prostíbulo mais próximo ou mais acessível.
Meu amigo, como todo estudante, estava com pouco dinheiro e fizera tudo para não gastar nenhum centavo naquela noite de quinta feira.
Conseguira poupar todo o dinheiro à custa de uma “dor de garganta” improvisada que o impedira de tomar, ao menos um refrigerante.
Dez da noite, namorada entregue em casa, tudo certinho , como mandava o figurino...
Morava na direção destra da rua e o prostíbulo era na canhota. Parodiando Drummond, foi ser “gauche” na vida.
Péssima escolha, veremos mais tarde.
Mas, hormônios são hormônios e o sexo estava a toda tomando conta da cara espinhenta e dos delírios noturnos.
Ao adentrar o prostíbulo, encontrara a mais bela morena que poderia imaginar em tal local.
Conversa vai, conversa nem vem e cama!
Noite deliciosa, com uma bela morena do lado, foi o mais demorado possível para um jovem em tal situação.
Quinze minutos de delícias inesquecíveis.
“Ah amor, gostou?
Amei querida...
Quanto foi?
Vinte reais...”
Até que não fora caro não, a menina merecia bem mais e, pensando em quanto daria de “gorjeta” para a bela garota, teve uma surpresa...
Procura daqui, procura dali, e cadê o dinheiro?
Não é que, ao pegar a calça jeans azul, se confundira e vestira a blues jeans?
E agora? Inteiramente nu, sem dinheiro nenhum e essa situação crítica.
Ao argumentar com a “donzela”, essa lhe mostrou a outra face, ao invés da doçura inicial, o rosto se modificou. De repente, surge uma peixeira de mais ou menos dois palmos de comprimento e fio exemplar.
“Você vai, mas a roupa fica!”
E essa agora; “posso pegar a cueca?”
“Sem cueca. A roupa só depois de eu receber a grana!”
O que fazer? À distância para sua casa não era muita, mas teria que passar no centro da cidade e ainda eram onze horas da noite.
Pelado e sem bolso pra colocar as mãos, não teve outra escolha.
Para o cúmulo do azar, Pepeu, um cãozinho pequinês que pertencia a sua namorada estava acordado.
E bem acordado. Nunca maltrate os animais, isso, além de ser de uma maldade absurda, pode causar contratempos terríveis.
Durante uns dias, com raiva da namorada, por causa de uns dá não deu que o deixavam agoniado, resolveu descobrar sua frustração no pobre animal. Não é isso que você está pensando não, ouviu? Ele deu foi umas pauladas de “leve” no focinho do pobre cão que, ao perceber sua presença, resolveu latir a toda a fim de demonstrar sua indignação.
Indignada ficou a namorada que, ao abrir a janela, se deparou com um homem nu correndo , mas a tatuagem enorme nas costas denunciara o fujão.
Maldita tatuagem!
Ao chegar em casa, sua mãe o esperava sentada, fingindo assistir a um programa de televisão.
Ao ver o seu “pimpolho” com a cabeça do “pimpolho” exposta, deu um grito, acordando a casa toda, inclusive a irmã caçula, para seu azar. Foi motivos de intermináveis gozações de sua amada irmãzinha.
Explicações eram necessárias, mas o resgate se impunha mais urgente.
Pegou a calça com os vinte reais, e foi de retorno ao prostíbulo.
Mas, para sua surpresa, ao entrar na ante-sala, dá de cara com o sogro, à espera da mesma morena mas, creio que com condições para pagar o serviço executado.
Conversa vai, conversa vem; eis que, como do nada, aparece a namorada e a sogra, devidamente armadas com todos os argumentos para esculachar o pobre estudante.
Circo armado, a morena, ao ver tamanha balbúrdia, abre a porta e, com a peixeira já conhecida, ameaça a todos.
Meu amigo, aproveitando-se da confusão, entra no quarto da morena, pega a roupa e sai correndo em meio ao tumulto.
Resultado da confusão – um casamento e um namoro desfeito mas, mineiramente falando, pelo menos os vinte reais não foram gastos.
É, pensando bem, o prejuízo não foi tanto...