domingo, maio 21, 2006

CANTOS DO MEU SERTÃO

Cumpade, peço procê

Fazer um grande favô

Presse grande amigo seu

Que dende que ele nasceu

Tem proce grande amizade

Te peço pru caridade

Ouça bem que vô contá

Um segredo que carrego

Dende os tempo de moleque

Se outro falar , arrenego

Nem que para isso eu peque

Num posso nem confirmá

É coisa muito medonha

Que nem pena nem mais sonha

Quem me conheceu menino

Correndo num desatino

Pras banda desse sertão

Pro meio daquelas roça

Deitando nessas palhoça

Batendo, levando coça

Cumo menino levado,

Que um dia, destrambeiado

A vida tão maltratô

Que proibiu os amô

Presse meu peito coitado

Que bate ressabiado

Precisa ser consolado

Mas num tem quem o console

Bebendo de gole em gole

A vida desperançada

Nessa forma mais marcada

Que muito me maltratou

Que tanto me machucou

É por isso que eu te peço

Te imploro mais, por favor

Ajude esse pobre coitado

Nesse mundo abandonado

Criado sem ter paradô.

Se lembra nos tempo antigo

Todo mês que eu já sumia

Pra bem longe que eu partia

Sem pensar nesse perigo

Que hoje, confesso te digo

Vancê vivia assuntando

Toda veiz me preguntando

Por onde que tava andando

Por essas mata bravia

Que que de novo que eu via

E que podia contar.

Mas se lembra bem, cumpade

Que sem ter força ou maldade

Cismava de me mostrar

Cuberto cum a casaca

No calor ou na friage

Trazendo na mão estaca

Falando tanta bobage.

Os braço tava arranhado

Os peito tão machucado

Que num podia na arage

Aparecer pois talvez

Cumo ia exprica proceis

Toda aquela machucagem?

Se lembra, meu caro amigo

Que desde que estou contigo

Nunca dei de namorar

Memo as moça das mais feia

Dessas moça que vadeia

Que nem bicho nas candeia

Pra mode podê posá

Numa casa das de teia

Pegando bem nessas teia

Um inseto pra casá!

Nunca tive esse desejo

De puder dar só um beijo

Nem tampoco pude amá!

Mas nesses dia passado

Um caso desesperado

Desses bem mais trapaiado

Que novéra de contá

Se num fosse o assucedido

Coisa de me arrepiá!

Apois bem, que eu conheci

Nas mata de Mirai

Uma moça bem bonita

Com dois laço dos de fita

Com os óio que tanto agita

Sartando que nem cabrita

Pulo meu peito sofrente

Trazendo nas mão, na frente

As rosa que mais perfuma

Das cô das mais melindrosa

Na mão dereita ia uma

Nesquerda um buquê de rosa...

Apois então meu cumpade,

De tudo que mais percizo

Um restinho de juízo

Ainda tinha bem comigo

Eu sabia do perigo

A pobre moça é que não,

Onte foi lua das cheia

Daquelas que alumeia

Todo esse nosso sertão;

Pois então caro cumpade

A moça cismou de ir tarde

No barraco adonde durmo

Cum seu chero me perfumo

Dizia pra mim ovir

Antes num tivesse tido

De desejo possuído,

Do grito sempe contido

Na garganta já calado

Dispois de ter satisfeito

O que achava de dereito,

Cum munta gana e amor

Drumi, sonho cansativo

Acordei mais morto vivo

Do lado o corpo estendido

Sangrando todo partido

Meio de banda de lado

Já meio que devorado,

Olhei bem pras minha mão

O sangue já mei talhado

Espaiado pelo chão.

Então saí de carrera

Abrindo já essa portera

Pedindo por inclemenca

Isso é caso das doença

Percizo, peço o favor

Por caridade e amor

Olhe bem pra esse home

Que sempre foi companhero

Mas na vida, desgraçado

Dende os premero janero,

Já curri o mundo entero

Essa coisa me consome

Me devora e mais me come

Cumpade meu grande amigo

Vê que sina que comigo

Trago esse grande perigo.

Me mata bem mais ligero

Num quero mais essa vida

Perfiro essa despedida

Do lado de quem conheço

De há munto já que eu padeço

Por favo, compade eu peço

Num tenha arrependimento.

Me mata que eu já num guento

Nem suporto mais a sina

Essa que é sina assassina

A sina que me consome

Sina de ser lobisome!