domingo, julho 16, 2006

O umbigo na terra.

Seu moço, aqui é minha terra, meu torrão natal, meu e dos meus pais, dos meus irmãos e dos meus avós.
Aqui estão enterrados todos aqueles que amei, em cada palmo desse chão, está a história desse que vos fala.
Filho de Dona Zica e de Seu Lula, gente simples, trabalhadores, que a terra engoliu de velhice, velhice de sertanejo que começa depois dos trinta.
As rugas precoces e profundas me lembram a terra seca, profunda nas grotas e nas curvas do rio seco. O suor molha mais os sulcos que a chuva, coisa difícil por aqui.
Chuva que, quando vem, transforma a vida, vida boa, vida próspera nas colheitas de mandioca, feijão, milho; no leite gorduroso das cabras e da vaquinha, companheira fiel no arado e no alimento.
Mas, a cacimba da alma, tantas vezes aguada pela dor da morte, carpida e tristonha, das perdas da vida e das vidas, tem a água salobra, que prende na garganta, não desce, empanturra.
Meus irmãos, dos quinze que Deus deu, a seca, a fome, a desidratação e a surucucu levaram oito. Sete restaram, todos fortes e valentes, todos foram embora, menos eu.
Fiquei aqui, essa é minha terra seu doutor. Meu umbigo está grudado nesse chão.
O riacho, quando vivo, é tão bonito, mas, na seca, com seu leito cheio de areia e de pedra, leva as mães, como levava a minha, com a lata na cabeça, em busca da água barrenta no açude seco.
Nessa terra, moço rico tem água, fazendeiro rico tem gado, e tem os caboclos e jagunços.
Meu pai, pobre e lutador, morreu sem bala, sem tiro, sem morte matada, a não ser dos calangos e dos bichos da seca.
Gambás e cobras ajudavam a matar a fome, mitigada pela palma, disputada com o gado.
Somente o carcará, bicho danado, tinha pasto nas carnes dos bichos mortos pela queimada e pela seca.
Vaqueiro, sou vaqueiro com meu gibão e cravinote, pronto para a batalha, correndo entre os espinheiros dessa caatinga seca e sedenta.
Minha mãe, me recordo sempre, dizia, entre as orações de graças e de pedidos de perdão, pelo pecado cruel de existir, que onde o umbigo está, a vida continua, a distância traz a falta de paradeiro.
A pedra que não cria limo, é pedra rolando, inconstante e que, quem muito muda não cria limo.
Meu limo está entranhado nessa vaquinha, nesse arado, nesse chão.
Não vou embora não seu moço, fico aqui até o derradeiro dia.
Minha esperança é tão verde quanto meu sonho, quanto os olhos da amada, os olhos da terra que tento cultivar.
No cultivo da espera por outro tempo, um dia...
Os moços prometeram, vi na televisão, mas é tanta promessa que não tenho mais pressa, nem esperança.
Vou vivendo, às avessas, sem amanhã, na espreita do calango, na ponta da espingarda, com o rosto, a cada dia, formando as serras e os vales.
Vou ficando, quem sabe um dia, essa terra, minha terra, seja mais mansa e mais amiga.
Minha mãe e meu pai, meus irmãos, trago comigo, pesando o coração, deixando meu andar de banda, por estas bandas onde vivo, aonde vou também, um dia, me juntar com meu umbigo e alimentar esse chão.
Faminto de todo meu povo, matando a fome do sertão.
Meu sangue, regando a terra, para que, quem sabe, um dia, os homens desse país, pensem um pouco na gente.
Nós somos brasileiros, esse é o nosso país, mais que brasileiros, nordestinos, essa é nossa sina e mais que nordestinos sertanejos.
Aqui, nessa caatinga; aqui, nesse sertão, é nosso primeiro e derradeiro solo, o solo sem consolo, o solo sem apoio, no aboio do meu gado, da minha vaquinha Estrela, do meu boi Fubá, da estrela solar que esturrica, que seca e mata.
A terra, meu único bem, bem amado bem te vi, no mandacaru que, a cada florada, traz a esperança do milho, do feijão e da mandioca.
Por isso, seu doutor, não vou embora, nunca na minha vida.
Não deixo o meu Ceará, é aqui a seara onde será, meu sertão, a terra prometida, minha lida e minha sina, minha raiz.