sexta-feira, janeiro 22, 2010

23247

Telúricos caminhos, primavera
Expressam alegrias que não trago,
E quando vejo enfim tamanho estrago
A vida em novo tempo não se gera.

Enquanto a realidade degenera
Queria desta fera algum afago,
E mesmo a placidez do antigo lago
Viver em plenitude: quem me dera!

Acasos não são fases, frases soltas
As ondas que encontrei sempre revoltas
Denotam as marés que enfrento agora.

A morte se aproxima paulatina
Assim como inebria e me fascina
Eu sei que este momento não demora...

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23244

Vivendo de um recôndito passado
Alçando velhos ares, roupas rotas
Bebendo deste bálsamo tais gotas
Ao léu meu verso teima em alto brado.

Alcanço apenas trevas solitárias
O tumular poema que demonstro
Remete a quase inerme e torpe monstro
Amortalhadas sendas temerárias.

Pudesse respirar míticos ares
Ainda assim teria sido inútil.
O sonho se denota sendo fútil
Enquanto as vestes simples e vulgares

Estampam a verdade que não vejo,
Apego-me ao já morto e vão desejo...

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23243

A cosmopolitana poesia
É feita em farsas simples, toscamente;
Remetendo ao vazio tolamente
Qual fora praga atroz já se procria

E enquanto o Velho Olimpo se esvazia
Ocaso destruindo cada mente
Quando a morte desta arte se pressente
Nos olhos dos beócios a alegria.

Mortalha que inda teima em algum brilho,
Não vejo em meu ocaso alguma luz
O tosco quando em tosco reproduz

Diverso do caminho que ora trilho
Não deixa que se veja no futuro
Além de um tempo amargo, tolo e escuro...

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23241

Somente um espectro tosco, vão, sombrio
Durante alguns momentos, quis a vida
Em meio às vagas trevas ressurgida;
Comédia que entre tantas propicio.

Não pude suportar tal desafio
Imagem do passado já perdida
A voz em teimosia não ouvida
A morte num instante; prenuncio.

E vejo se perdendo pouco a pouco
O que pudesse haver de uma esperança
Tentara pelo menos temperança,

E rondo os meus fantasmas feito um louco
As larvas adentrando esta epiderme,
Cadáver resumido em cada verme...

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