Quinta-feira, Agosto 31, 2006

Eu temo teus segredos, pois são meus...

Eu temo teus segredos, pois são meus...
Cada vez que fugia proutros braços,
Eu sempre me encontrava em teus abraços.
Comparsas, tantas vezes, meros breus!

Em todos os pecados, bem ateus,
Vivíamos correndo os olhos baços,
Cruzando esses limites sem cansaços,
E sem temer, ao menos, sequer Deus...


Não podes confessar, pois, a ninguém,
O que tanto tramamos, nossa história...
Fingimos comportar querermos bem.

Mas, em verdade, fomos essa escória.
Fazíamos da noite, uma refém.
Por isso, por favor, cegue a memória...

Velha Praga

O seu caminhar célere na sala;
Passando por qualquer novo orifício,
Demonstra o quanto audaz, no seu ofício.
Perturba totalmente, e sequer fala...

Não respeitando nada, sal ou bala,
Qualquer coisa servindo como vício;
Nas mais altas montanhas, precipício,
Vive qualquer lugar, mesmo na vala...

Com certeza não sabe ser amiga,
Companheira de todos, tão antiga.
No campo, na cidade vem, estraga,

Seu nome representa vera praga;
Roubando, produzindo velha chaga
Não posso suportar essa formiga...

Trovas - Medo trago na bagagem

Medo trago na bagagem,
Na barragem do segredo,
De enredo sei a coragem,
Na aragem do meu degredo...

Ostra traz na sua dor,
A riqueza delirante,
Tanto quanto meu amor,
Traz a dor a cada instante...

Nas cercanias da vida,
Encontrei a minha sorte;
Se não sei da despedida,
Como irei saber da morte?

Recebi tantas propostas
Para conhecer a lua.
Se não me deres resposta,
Minha vida será tua...

Meus velhos penduricalhos,
Carrego sem ter mais dó;
Dessas árvores, seus galhos,
Vão me deixando tão só...

Fiz meu ninho na mortalha,
Das dores fiz o meu mar.
Meu amor não me atrapalha,
Senão falha esse cantar...

Minha lábia foi pro brejo,
Meu olhar fugiu de ti;
Meu amor morreu no Tejo,
Desde o dia em que nasci...

Tenho cais, quero navio,
Tenho luta, quero guerra,
Tenho luz, quero pavio,
Quem tem seu amor não berra!

Vida traz tal saliência,
Que revela o bem querer;
Não vem me falar clemência,
O meu amor é você!

As teias vou ateando,
No campo das azaléias;
Nessas atas vou atando,
As asas dessas atéias...

A beleza que não salta,
Nem revolta quem não é;
A tristeza quando assalta,
Acaba com toda fé...

Na metade do caminho,
Cama dei para Luzia,
Ninho para meu benzinho,
O resto deixei pra Lia...

Mar trazendo maresia,
Vida trazendo vingança.
Desse pó a poesia,
Da minha espera, esperança...

Não temo trem nem tremor,
Nem quero vintém, tostão...
Nem amoras nem amor,
Violência e violão...

Num bolero, dançando com Teresa

Num bolero, dançando com Teresa,
Nossa noite transcorre macia,
As costas semi-nuas, melodia
Transformando, levito em tal beleza...

O perfume Gardênia, traz leveza,
A mão mais audaz, lúdica, vadia...
Quem me dera morresse nesse dia...
Minha alma espalharia natureza...

Nesse ritmo frenético da dança,
A noite sem sentirmos, mansa, avança...
Flutuando, seus passos são divinos,

Procuro me conter, meus desatinos;
Trago felicidade de meninos,
E ao beijar esses lábios, esperança!

Amor Rebaixado

A minha amada Maria,
Depois de muita conversa,
Todo dia me exigia,
Casamento assim depressa...

Por um motivo banal,
Não pude nem ofertar,
Sem dinheiro, o principal,
Como vou poder casar?

Maria me disse sentida,
Isso né motivo não,
As coisas boas da vida,
Moram no meu coração...

Pensando nessa verdade,
Olhei pra cima, pro céu,
Reparei na claridade,
Maria, bela com véu...

Ofereci pra beldade,
Um lugar para morar,
Falei, sem falsidade,
O que dava pra comprar...

Lhe disse: que tal Mercúrio,
Ela olhou bem diferente,
O lugar é bem espúrio,
Eta lugarzinho quente!

Sem dinheiro, o que é de menos,
Eu falei em procurar,
Um terreno lá em Vênus,
Nem me deixou completar...

Cheio de carinho e arte,
Belo tom avermelhado,
Eu fui falando de Marte,
Me disse não, é gelado...

Olhei um olhar soturno,
Minha voz, coloquei mel,
Como é lindo esse Saturno!
Nem Saturno, nem anel...

Falei, agora com medo,
Júpiter é maioral!
Foi me contando um segredo,
Muito grande, passo mal...

Pensei, mudando de plano,
Num terreno mais distante,
Fui pensando em Urano,
Me disse: passe adiante...

De nós dois virarmos uno,
Tanto sonho nessa vida,
Nem pude dizer Netuno,
Me falou em despedida...

Mas agora estou ferrado,
Não posso falar Plutão,
Tal qual como estou, rebaixado,
Não é planeta mais não!

Décimas - Saudade

Saudade – mulher amada,
Dos nossos beijos roubados,
Saudade dos tempos passados,
Na noite, na madrugada,
Da tua boca molhada,
Dos corpos entrelaçados,
Dos desejos mais molhados,
Desse tempo que não volta,
E, por não voltar, revolta,
Corações apaixonados...

Saudade da minha infância,
Onde vivi felicidade,
Trazendo tanta saudade,
A quem não teve constância,
Da sorte teve distância,
Mas foi feliz por um dia,
Vivendo da fantasia,
Que nunca mais voltará,
Saudades torrada e chá,
Que minha mãe me trazia...

Saudades da minha terra,
Que ficou no meu passado,
Olho o tempo, vou de lado,
O coração não encerra,
Pesando daquela serra,
Inclinado vai andando,
Tanto lugar se mostrando,
Nas curvas da existência,
Mas, saudade, diz clemência,
Num retrato, recordando...

Saudade da juventude,
Onde não tinha nem medo,
A força era meu segredo,
Onde sempre quis não pude,
Amar assim, amiúde,
Quem nunca mais queria,
Mas a vida era vadia;
Nem sonhava recompensa,
Vida leve, breve, densa,
Saudade faz melodia...

Saudades do grande amigo,
Que ficou lá no sertão,
Seguindo por outro chão,
Nunca mais terei comigo,
No conselho, paz, abrigo...
Na vontade de ser rei,
Tantas vezes que eu errei,
Tive o braço companheiro,
Hoje sei do mundo inteiro,
Mas saudade também sei...

Saudade do Botafogo,
De Garrincha e de Didi,
Do melhor time que vi,
Não tinha nem pena e rogo,
Brincando, ganhava jogo,
Nas pernas tortas e loucas,
Vozes delirando roucas,
No Maracanã da vida,
Pena que vai esquecida,
As lembranças são bem poucas...

De minha mãe a saudade,
Dói essa dor tão cruel,
Mãe na terra, mãe do céu,
Simbolizas claridade,
Se a vida traz falsidade,
A verdade em ti está,
Onde eu estiver, é lá,
Que teus olhos estarão,
Nesse imundo mundo cão,
És um porto mais seguro,
Se me escondo nesse escuro,
Representas o clarão...

Saudades desse meu filho,
Ceifado logo bem cedo,
Deixando meu grande medo,
Novo enredo que hoje eu trilho,
Sua dor, meu estribilho,
Entoando todo dia,
Martiriza a noite fria,
A saudade rasga o peito,
Pergunto qual meu direito!
Vou vivendo essa agonia...

Saudades dessa esperança,
De viver um mundo justo,
De respeitarem arbusto,
De respirar nova dança,
De teimar em ser criança,
De ter um mundo melhor,
Sem diferenças e guerras,
Nossa Terra, tantas terras,
Nosso sonho ser maior,
Justiça saber de cor...

Saudade trazendo um laço,
Prendendo o que for saudade,
Saindo da realidade,
A vida acolhendo meu passo,
Descansar esse cansaço,
Duns olhos de sertanejo,
Na campina, no desejo,
Do trabalho, lindo sonho,
Minha saudade, te ponho,
No canto dum realejo...

Saudade dessa mulher,
Saudade dessa criança,
Saudade dessa festança,
Saudade, jovem, me quer.
Saudade, jogo qualquer...
Saudade tão companheira
Saudade dor parideira,
Saudade doce Natal,
Saudade desse ideal,
Saudade da vida, inteira...

Cordel - A minha sina - capítulo 7- Nas Cirandas do Tororó

E depois da confusão,
E de ter quase morrido,
De ter saído fugido,
Com o coração na mão,
Desse bosque Solidão,
Fui correndo sem olhar,
Não podia nem parar,
E nem prestar mais socorro,
Desce morro, sobe morro,
Nem deu tempo pra pensar...

Fui procurando fugir,
Sem pensar nem um segundo,
Procurando um outro mundo,
Sem medo de prosseguir,
Vou seguindo por aí.
Reparei, dei atenção,
Inda tinha o coração
Da maldita junto a mim,
Pensei bem depressa sim
Me livrei da maldição...

Coração já descartado,
Como sempre vou tão só,
Sem querer tristeza e dó,
Eu vazei no capinado,
Sem olhar pra cima ou lado,
Fui seguindo meu rumo,
Aprumei, enfim o prumo,
Deixei léguas de distância,
Andando com mais constância,
Dessa vida quero o sumo...

Sumo da minha saudade,
Fé na vida e no futuro,
Não temo morte nem muro,
A vida na qualidade.
Amor bom de quantidade,
Que não dá pra nem ter pena,
Na certeza tudo acena,
Pelos campos e sertão,
Procurando esse estradão
Sem ter viagem amena..

Nos trombolhos dessa serra,
Capotado mais de fome,
Não tem tempo que se some,
Nem quem acerta mais erra,
Estradeira, tanta terra,
A vida não deixa só,
Posso até comer timbó,
Mas a sede é mais ingrata,
Se bobeia, vem e mata,
Procurei por Tororó...

Na sede que me encontrava,
Qualquer coisa me servia,
De cacimba ou de bacia,
A sede que me matava,
Nunca mais que se parava,
Pelo Tororó eu sei,
Naquela terra sem rei,
Muita fonte bem servida,
Salvaria a minha vida,
Mas nessa sina eu errei...

Pensando n’água gostosa,
Minha boca até tremia,
Minha vida, nesse dia,
Era coisa perigosa,
Nem dei dedo de prosa,
Fui em busca de beber,
Dando fim ao padecer,
Mas não encontrei a fonte,
Sequinha até nessa ponte,
Agora é que vou morrer!

Mas, parece não queria,
Que essa vez fosse a minha,
Uma bela moreninha,
Com um jeito de vadia,
Beata de sacristia,
Foi a minha salvação,
A sede matei então,
Nesses lábios tão molhados,
Reparei, olhei pros lados,
E segui minha missão...

No Tororó, eu deixei,
Essa gostosa morena,
Fiquei mais morto de pena,
Pelos matos, eu entrei,
Não tenho caminho eu sei,
Preciso seguir viagem,
Não posso fazer bobagem,
Senão estou mais ferrado,
Não sou cabra abobalhado,
Nem posso ver sacanagem...

O sono vinha chegando,
Um sono desavisado,
Me pegou despreparado,
Meu caminho vou andando,
Nem sequer vou reparando,
Nem nas curvas dessa estrada,
Não quero saber de nada,
Não me importa mais a hora,
Pois, se não dormir agora ,
Dormirei de madrugada...

Avistei nesse caminho,
Na ciranda, requebrando,
Esse pessoal dançando,
Coisa de muito carinho,
Mas, pensei, sou eu sozinho...
Não pude nem reparar,
Quando ali, eu vi chegar,
Com a boca tão bonita,
A minha querida Rita,
Que ficou lá no luar...

Essa bonita Ritinha,
Era moça bem prendada,
Numa noite desgraçada,
A lua por ser sozinha,
Roubou o brilho que tinha,
Os olhos dessa menina,
Deixando mais triste a sina,
De um cabra mais infeliz,
É por isso que se diz,
Que a lua é mais cristalina...

Mas nesse momento santo,
Minha vida teve um manto,
A beleza dessa Rita,
Coração vem e palpita,
Calando todo meu pranto,
No mundo do cirandar,
Procurando sem parar,
Sem temer estar sozinha,
A minha amada Ritinha,
Me escolheu como seu par...

Dançando sem paradeiro,
Minha vida ficou bela,
Não queria nem ter vela,
Nem queimar meu pardieiro,
Bastava do mundo inteiro,
Era ali que eu encontrava,
A vida que eu procurava,
Sem ter medo de viver,
Ali posso até morrer,
A morte não me cansava...

Mas, momento distraído,
Olhando pr’essa beleza,
Reparei pr’a ter certeza,
Pensando no já sofrido,
Nesse mundo dividido,
Entre meu Deus e o diabo,
Reparei que tinha rabo,
Naquela moça bonita,
Olhando os olhos da Rita,
Agora é que eu me acabo...

Os olhos avermelhados,
Me mostraram meu engano,
Duas orelhas d’abano,
Bigodes mal aparados,
E dois chifres disfarçados...
Na roda dessa ciranda,
Dei pinote fui de banda,
Correndo sem ter sossego,
Larguei a mão do pelego,
Senão o troço desanda.

Minha sorte foi tamanha,
Que peguei bem de surpresa,
Já contava com a presa,
Mas nem bem perde, nem ganha,
Nem de leve mais arranha,
A garra dess’ animal,
Quarei roupa no varal,
E sumi sem dar recado,
Das vistas do disgramado,
Montei cavalo de pau...

O capeta então sentiu,
Outra vez eu escapava,
Mas sossego não me dava,
A cor então me fugiu,
Meu cavalo, foi, saiu,
Voando pelo sertão,
Como fosse assombração,
Vazando pelo cerrado,
Eu nem olhei para o lado,
Varejei nesse estradão...

João Polino e a Caixa de Cedro

Aquela caixinha de madeira era uma das coisas mais importantes que João Polino tinha.
Uma das mais não, a mais importante. Guardada a sete chaves não mostrava para ninguém a não ser para a sua amada Rita, mesmo assim depois de que essa jurou por todos os santos que não iria nunca revelar a existência de tal tesouro.
Não era muito bonita nem apresentava detalhes e nem entalhes, era uma pequena caixa feita de cedro, de forma quadrada com mais ou menos um palmo de altura.
Dentro dela nada havia sendo, por assim dizer, uma caixa rústica e comum; mas raríssima, ao mesmo tempo.
Não pela qualidade ou pela beleza da caixa, nem pela caixa ao menos, o que transformava tal objeto em peça única será explicado a seguir:
Nos idos de 1940, João Polino se tornara caixeiro viajante como pudemos relatar anteriormente.
Nas suas andanças pelo interior de Minas e do Espírito Santo, conhecera um turco, conhecido como Salim, embora seu nome provavelmente fosse outro, que vendia roupas e tecidos para as mocinhas curiosas e elegantes desse interior afora.
Um dia, por uma dessas desventuras que atingem-nos de vez em quando, a vida se tornara extremamente difícil para Salim. Envolvido em dívidas impagáveis, precisava urgentemente de dinheiro. E isso não era fácil, pois estamos falando de uma região decente, mas pobre, muito pobre...
Ao saber que João estava economizando dinheiro para comprar uma casinha onde iria compartilhar o amor de sua vida; Salim resolveu chorar suas mágoas com o velho amigo e pedir algum dinheiro emprestado.
João, como tinha um coração extremamente suscetível e gostava, realmente, do amigo turco, não pestanejou e emprestou cinco contos de réis a Salim.
Essa quantia era extremamente vultosa para os parâmetros da época e do lugar. Uma verdadeira fortuna!
Passados quase dois anos do empréstimo, nada de Salim falar em pagamento e, pelas vestimentas usadas por ele e, principalmente depois da compra de um carrinho, usado é verdade, pelo caixeiro, João começou a ter vontade de cobrar a dívida.
Quando falou em pagamento, Salim desconversou e alegando novas dívidas se disse impossibilitado de pagar o que devia.
João, ao perceber que tinha sido passado para trás, esperneou e falou mais alto, prometendo que iria receber o dinheiro a qualquer preço.
Sabendo da fama de brigão e bom de sela do companheiro, Salim fez uma proposta:
Já que não tinha dinheiro iria pagar com a coisa mais importante que possuía na vida, herança de seus antepassados libaneses: uma caixa.
Mas não era uma caixa qualquer, era uma caixinha de cedro feita pelo maior carpinteiro de todos os tempos.
Ele, Ele mesmo, Jesus Cristo!
Ao saber disso, sem pensar duas vezes, nosso herói aceitou tal objeto sagrado e único como forma de pagamento do empréstimo.
E, todas as noites, rezava defronte àquela relíquia com toda a fé e devoção.
Passou-se o tempo, recomeçou a ajuntar dinheiro, casou-se, mobiliou a casa e teve os filhos, um após o outro até completar seis com o nascimento da caçulinha Ritinha e a adoção do sétimo, nosso amigo Gilberto, a imagem espelhar de João Polino.
Gilberto era muito curioso e não respeitava nada dentro da casa, ainda mais que, por ser mais novo que os netos mais velhos de João e Rita, tinha os privilégios que somente os netos têm.
Um dia, sem mais nem menos, Gilberto pegou a caixa, semi apodrecida pelo tempo e corre pela sala mostrando a todos a sua nova descoberta.
A caixa de madeira, orgulho de João Polino. Ao ver o menino com aquele objeto na mão, dona Rita gritou para que ele a desse antes que João chegasse pois, senão a coisa ia pegar.
Gilberto, assustado com o grito inesperado de dona Rita deixou a caixa cair. O estrago foi imediato, com uma enorme fratura na madeira, deixando uma rachadura de ponta a ponta no objeto sagrado.
Dona Rita entrou em desespero, o que iria dizer para o marido, como impedir que esse desse uma sova em Gilberto, o que iria fazer?
Até que, num momento de serenidade, Loza, sua cunhada, teve uma brilhante idéia.
Levar a caixa até um carpinteiro conhecido em Iúna, cidade próxima, que daria jeito em dois tempos.
Combinaram que levariam a caixa para ser consertada no dia seguinte.
Chegando à carpintaria do “Seu” Juca, tiveram uma decepção gigantesca quando esse disse que não adiantaria tentar consertar o que não tinha mais conserto, devido ao fato de que a madeira estava totalmente apodrecida e não agüentaria nem uma meia sola.
Dona Rita, então, num gesto desesperado, contou a história da aquisição do objeto por João sem omitir sequer os detalhes da origem e raridade do mesmo.
Ao que, Juca não pestanejou e respondeu rápido:
“Dona Rita, o carpinteiro que fez essa caixa pode ser até Jésus mas, jamais Jesus”.
“Repare aqui no canto inferior da caixa”.
Ao que, entre decepcionada e aliviada dona Rita leu : “Fabricado em Ubá MG”.

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

A cada tempo...

No tempo do meu sonhar,
Tempo que vai tão distante,
Procurando a todo instante,
Por tempo, espaço e lugar,
Acreditando passar,
A temporada da vida,
Numa luta divertida
No meio da tempestade,
Trazendo amor de verdade,
Sem ter lágrima sentida...

Tempo me traz essa brisa,
Onde o coqueiro balança.
Traz um guerreiro com lança;
A mão nesse mar que alisa,
O riso da Mona Lisa,
O medo de não prosseguir,
Meu tempo de tempo vir,
Nos contratempos sem medo,
A vida faz arremedo,
Do tempo que já perdi...

Não sei dessas temporadas,
Que a criança guardou,
No tempo que era d’amor,
Agora são massacradas,
Bandas da vida, guinadas,
Nas grinaldas me lancei,
Tanto tempo eu já passei,
Mas não me deixaste em paz,
Tanto tempo fui capaz,
De tentar o que não sei...

Versos trago sem tempo ter,
Tempo tenho pra sonhar,
Temporais para chegar,
Onde teimo me entreter,
Saberia sem saber.
Não vivo sem temporais,
Quero muito e tento mais,
Não sossego com tão pouco,
Tampouco gritando rouco,
Tempo, preciso demais...

Na curva da temporada,
Que passei lá nas Gerais,
Tempo templo até me traz,
O que julguei emperrada,
A sorte já vai danada,
A morte é mote sem fim,
Quero tempo para, enfim,
Firmar o meu pensamento,
Que transforma todo vento,
Tempo que pedi pra mim...

Meus cadernos tão antigos,
Me perco nas espirais,
Num jazigo, aonde jaz,
Os meus sonhos são castigos,
Tempo me aponta os perigos,
Curvando nesse meu lago,
Onde meu tempo eu afago,
Onde não tenho porque,
Quero já ver e vencer,
O meu tempo anda tão vago...

Teimoso sei não caço,
Rãs perdidas no brejo,
Amores lá d’Além Tejo,
Nas vilas perdi meu laço,
Vencendo enfim, meu cansaço,
Quero fazer o meu canto,
Trazendo com tempo encanto,
Nos vales quero profundos,
O melhor de tantos mundos,
Teve tempo pro meu pranto...

Um desejo trem gigante,
Que na vida tem tempero,
Fazer amor com esmero,
Pela vida radiante,
Estando só por instante,
Nos braços da minha amada,
Passando essa temporada,
Deixando o tempo prá trás,
Meu tempo de não ter paz,
Procurando nova estrada...

Tempo de ser mais feliz,
Tempo de ter esperança.
Tempo de ser tão criança.
Tempo que o tempo não diz,
Tempo de ser aprendiz...
Tempo de não ter mais medo,
Tempo de guardar segredo,
Tempo de se ter saudades,
Tempo de dizer verdades.
Tempo que faz meu enredo...

Nesse mundo fugaz, meu maior vício

Nesse mundo fugaz, meu maior vício,
As minhas mãos descem marginais,
Te buscando na veia, quero mais...
És o princípio, desde meu início...

Amor que não se julga, sei fictício,,
Aquele de promessa do jamais,
Aquele que enfim, tanto fez e faz...
Não deixando restar nem mesmo indício...

Viciado, portanto, sem ter cura,
A mão divina deixa a mata escura.
Eu tenho essa criança dentro em mim...

Porém sem aconchego do carmim
Dos lábios que beijei, num sem ter fim...
A tua ausência, amada, me tortura...

Trovas - Temperos

Eu só quero seu tempero,
Misturado na panela.
Meu amor é verdadeiro,
Tanto amor tenho por ela...

Tem a delícia do sal,
No tempero do churrasco.
Bolinho de bacalhau,
Por essa moça eu me lasco...

O sabor de cheiro verde,
Temperando essa morena;
Depois deitado na rede,
Da saudade tenho pena...

Um maço de cebolinha
Temperou o nosso amor,
Depois ela vem, s’aninha,
Esquentando meu calor...

Da salsinha que tempera,
Dá sabor para a comida;
Coração batendo fera,
Temperando nossa vida...

Alho com beijo na boca,
Não combinam na verdade,
Amor al dente, faz louca,
Aquela tranqüilidade...

A cebola no meu bife,
Dá um gosto especial,
Não me chame de patife,
Esqueça esse carnaval...

Noz moscada é o seguinte,
A comida fica boa,
Tem mulher pra mais de vinte,
Tem menina e tem coroa...

Pimenta deixa arretada,
Qualquer comida baiana,
Meu amor, de madrugada,
É gostoso, se sacana...

Erva doce dá tempero,
Na broa fica um encanto.
Amorzim, me dá um chêro,
Senão vai rolar meu pranto...

Mostarda na minha pizza,
Naquela de quatro queijos.
Meu amor vê se m’atiça
Na delícia dos teus beijos...

Catchup tem seu gosto,
Por demais adocicado;
Me deixa beijar teu rosto,
Deixando, fico empolgado...

Um limão cai bem no peixe,
Dá um sabor delicado;
Meu amor nunca me deixe,
O resto deixa de lado...

Se quiser, coentro, te trago;
Ajuda no temperar,
Quero a paz desse teu lago,
Aprender, nele, nadar...

Pimenta do reino traz,
Sabor a mais no salame;
Meu amor vou ser capaz,.
De tudo desde que m’ame...

Se tempero enfim, faltou,
Perdão te peço, querida.
Tanto amor que temperou,
Temperando minha vida...

Quando a minha montanha de desejos

Quando a minha montanha de desejos,
Num momento infeliz, desmoronou;
Nada, a não ser entulho, me sobrou.
Como fora gentil saber teus beijos!

Mas dessa sinfonia, poucos arpejos,
Nem isso mais resta, tudo acabou!
Depois que tudo acaba, quem sou?
Procuro, perguntando aos realejos...

Morenos, os teus olhos, vão sem rastro;
Pergunto por teu colo d’alabastro,
A resposta, nem vento, sabe dar...

Quem dera Deus, pudesse te encontrar,
Mas nem o pó d’estrada, nem o ar,
Meu mundo vai perdido, sem seu astro...

Joao Polino - O mar é azul

O mar é azul, e isso ninguém pode negar. Acontece que, em Santa Martha, distante do mar e próximo da montanha, essa realidade traz fantasias maravilhosas sobre o tamanho, a cor e o sabor salgado da imensidão marinha...
João Polino ,meninote ainda, resolveu ir sozinho ao Rio de Janeiro. Coisa quase impossível àquela época, nos anos trinta. Estradas de terra sem nenhuma pavimentação, teria que ir a cavalo até Alegre e depois pegar um ônibus que o levaria à cidade Maravilhosa.
Mas nada é impossível quando os sonhos são grandes e a força de vontade maior ainda, e esse era o caso do nosso herói.
Num dia de domingo, nos idos de março, montou o seu cavalo, prometendo trazer a água do mar, pelo menos um cantil, para a sua amada irmã e quase mãe Oracina...
Dias longos e difíceis nas costas de um cavalo cansado e envelhecido, um verdadeiro rocim quixotesco, iam os dois, o jovem cavaleiro e o velho animal descendo a serra do Caparaó.
Dinheiro? Quase não levava, o bastante para pagar as passagens de ônibus entre Alegre e o Rio de Janeiro. Coragem muita, dono dos fantásticos e irresponsáveis dezesseis anos de idade.
A noite trazia as suas armadilhas e era melhor dormir, deitado sob a luz da lua e ouvindo a sinfonia de grilos, sapos e corujas. Claridade, somente a dos pirilampos que povoavam os sonhos do nosso amigo.
Passa-se o primeiro dia, o segundo e no terceiro dia da aventura, o imprevisível aconteceu. O cavalo, cansado da viagem, deitou-se e não mais se levantou.
O que fazer? Como poderia seguir adiante?
Para sua sorte, estava próximo de Alegre, deixara Celina para trás e a serra agora estava acabando, numa descida cheia de curvas e desesperanças...
Voltar atrás seria a decisão de qualquer um mas, quem disse que João Polino era qualquer um?
Herói que se preza não pode temer intempéries nem dificuldades e, promessa feita era para ser cumprida.
Faltavam poucos quilômetros para chegar em Alegre e isso era o bastante.
Mas, o dinheiro que levava não daria para a volta, já que teria que comprar ou, pelo menos, alugar um outro corcel.
A decisão cruel, embora a única possível, se apresentou. Teria que comprar um cavalo em Alegre e reiniciar a viagem, de volta...
Mas, pensamento rápido como o de João era raro e, teve uma brilhante idéia.
Água azul, mar azul, água salgada e mar salgado...
Oracina não perdia por esperar!
Numa vendinha no centro de Alegre, João resolveu os seus problemas.
Comprou um tablete de anil e um quilo de sal.
A água poderia ser do rio Norte mesmo, o cantil esperava a água marinha...
Não deu outra, três dias depois, Oracina tinha em suas mãos a mais legítima água azul e salgada do mar nas suas mãos...

Cordel - A minha sina - capítulo 6 - O Bosque Solidão

Passando essa confusão,
Vendo que tava lascado,
Um caminho disgramado;
Minha triste maldição,
O danado capetão,
Num ia deixar barato,
Nem correndo para o mato,
Nem correndo pra diabo,
Minha vida vai ter cabo,
Na beira desse regato...

Fugindo e correndo tanto,
Não queria nem assunto,
Prá terra dos tal pé junto,
Eu num quero virar santo,
Nem quero encontrar encanto,
Mas num tem como escapar,
Se o troço se complicar,
Como vou fazer nem sei,
Nessa confusão, entrei,
Vamos ver no que vai dar...

A terra tem muita liça,
Tem fome de dar com pau,
Cantando o pinica pau,
A coisa toda se enguiça.
Muita gente tem postiça,
A dentada de morder,
Eu juro que quero crer,
Em meu padinho de fé,
Vou correndo vou a pé,
Só num quero, então, morrer...

Nos braços de Jericó,
Vou montado num jerico,
Não tenho outro pro bico,
Minha vida é lida só,
Amargando qual jiló,
Não tem muito jeito não,
Procurando solução,
Fui procurar descanso,
Nas bandas doutro remanso,
Mas descanso é ilusão...

Chegando na mata agreste,
Correndo da assombração,
Desse tal de capetão,
Encontrei cabra da peste,
Que nem centavo que reste,
Valia para pagar,
Mas quem houvera encontrar,
Numa hora delicada,
Qualquer que seja essa enxada,
O que quero é capinar...

Companheiro Virgulino,
Casado lá com Marina,
Deixando da minha sina,
Me disse do desatino;
Te vira com teu destino,
Nessa nem posso falar,
Quem mandou se complicar,
Eu te dei o ajuntório,
Mas agora, no cartório,
Marina quer se casar...

A bichinha tá buchuda,
Num posso deixar de lado,
Você que é muito tarado,
Vai ter que buscar ajuda,
Na terra do Deus m’acuda,
Que fica por outra banda,
Nos reisados de Luanda,
Onde a curva faz o vento,
Nos grotões do esquecimento,
Onde Judas tem quitanda...

Eu montei no jumentinho,
Das asas fiz seu arreio,
Me empaturrei de centeio,
No meio desse caminho,
É só seguir direitinho
Que no final dá em nada,
A vida traz enxurrada,
É só se deixar levar,
Aprendendo a navegar,
Em barro e terra molhada...

Fiz caminho de três luas,
De galope e de pinote,
Encontrei um molecote,
Que me disse então das suas,
Seguindo por essas ruas,
Ladrilhadas de brilhantes,
Com pegadas de gigantes,
Para o meu amor passar,
No bosque vai encontrar,
Um anjo de diamantes...

Seguindo pela alameda,
Passando pelo matão,
Um anjo de coração,
Queimando na labareda,
Me mandou pela vereda,
Ponteada de luar,
Chegando a comemorar,
Cada alma que passava,
Pertinho, eu acho, que tava
Daquele bendito lugar...

Era a minha salvação,
Encontrar Deus me acuda,
Pra sair dessa rabuda,
Não tem outro jeito não,
É deixar meu coração,
Seguindo nessa procura,
Vasculhando noite escura,
Procurando pela sorte,
Prá fugir da minha morte,
Criando essa criatura...

Depois do tal Solidão,
Como se chama esse bosque,
Para que nunca se enrosque,
Travando o coração,
Anjo é famoso ladrão,
Tive que cair n’estrada,
A noite enluarada,
Ajudava no caminho,
Tenho que ir bem sozinho,
Senão não vai dar em nada...

Nem cheguei a dar dois passos,
Uma coisa me parou,
Meu coração caducou,
Não quis sair dos compassos,
Naquele anjo os abraços,
O coração quis trocar,
Não queria me deixar,
Seguir a minha viagem,
Pensei logo na bobagem,
Eu não podia esperar...

Deitado naquela rua,
Nas pedrinhas tão cheirosas,
Pareciam ser de rosas,
Uma linda mulher nua,
Me dizendo: sou sua,
Não podia resistir,
Como é que iria partir,
A vida estava marcada,
Pois, naquela madrugada,
Eu não podia sair...

Meu compadre Virgulino,
Já tinha me alertado,
Preu tomar muito cuidado,
Com tal bosque cristalino,
Esse anjo, de desatino,
Tinha feito muito estrago,
Coração deixava vago
Nem deixava respirar,
Matando bem devagar,
Sangrava fazendo afago...

Eu caí da montaria,
Abracei essa mulher,
Seja o que Deus quiser,
Pelo menos por um dia,
Vou deixar a fantasia,
Dos meus sonhos me levar,
E depois vou viajar,
Sem nunca mais ter paragem,
É preciso ter coragem,
Vou, então, me encorajar...

Um perfume diferente,
Chegou de leve, na boca,
Não posso dormir de toca,
Mas não há quem mais agüente,
Envolvendo toda gente,
Nesse tamanho desejo,
Naquela boca dar beijo,
É sentir que está no céu,
E depois tirar o véu,
Nessa peleja eu pelejo...

Mas nem beijava direito,
E depressa já sentia,
Uma ventania fria,
Uma dor dentro do peito,
Reparando bem direito,
O que parecia um anjo,
Como da viola o banjo,
Ficou coisa diferente,
Meu peito deu na corrente,
Como então, que eu me arranjo?

Uma risada safada,
Bem conhecida por mim,
Com aquela voz chinfrim,
Uma voz bem debochada,
Soltou uma gargalhada;
Foi, então que eu reparei,
Desde a hora que cheguei,
O bosque da Solidão,
Só queria o coração,
Depressa então, eu saquei,

No bornal que tava ali,
O meu punhal de dois gumes,
Acostumado em costumes
De sangrar ali e aqui,
Nesse mesmo instante vi,
O peito da desgraçada,
Aberto, na buracada,
Que aprendi a fazer,
E lá dentro eu vi bater,
O coração da danada!

Meti a mão num segundo,
Arranquei numa mãozada,
Do peito dessa safada,
E vazei correndo o mundo,
Deixei esse bosque imundo,
Sem ter pena nem ter dó,
Eu fui correndo mais só,
Do que nunca tinha feito,
Coração ranquei do peito,
Nessa estrada como pó...

Aquela risada esquisita
Depois me lembrei direito,
A danada tinha o jeito,
Da risada da maldita
Daquela vaca e cabrita
Da mulher do capetão,
Foi nesse momento então,
Que vazei no capinado,
Nunca mais voltar pros lado,
Do tal Bosque Solidão...

O frio traz Regina e chocolate

O frio traz Regina e chocolate,
Minhas mãos procurando por você,
Somente encontram vagos sem por que,
Esse frio aumentando, tudo abate...

Só queria saber, a vida late,
Desavisada a mente me faz crer,
Que nunca mais irei, ao menos, ter
Os carinhos que esquentam, nem chá mate,

Nem os lábios suaves de Regina.
Grávido dos desejos, abortados...
Queria, lhe procuro, pelos lados.

Sua mão que eu queria, mão divina,
Perdida nessa gélida matina,
Somente deixam sonhos congelados...

Música ao longe, canto tão suave;

Música ao longe, canto tão suave;
Noite perpetua-se mais tranqüila,
Nem os grilos entoam nessa vila;
A música distante , lá do vale,

Chega para os ouvidos, traz a chave
Que poderá afinal, fazer d’argila,
Aquela que pensei ser a pupila
Que me fará ver, luzes dessa nave

Que navegado a esmo, pensei morta...
A música atravessa a linha torta,
Deixando a solidão lado de fora...

Quem me dera pudesse crer outrora,
Nesse momento santo que s’aflora,
Música te trouxesse à minha porta...

Eu queria ser livre eternamente

Eu queria ser livre eternamente,
Livre do tédio dessa longa espera.
Livre para tentar uma nova era,
Livre como a criança que não mente,

Apenas sonha. Quero simples mente,
Sem as perguntas tantas, vida impera
Sobre essas vastidões, dúvida fera,
Eu quero a liberdade, simplesmente...

No marfim dessa lua que me cobre,
Não queria jamais ser o que sobre,
Nem perceber vergonha em tantos medos.

Queria conhecer tantos segredos,
Mas não me restariam nem meus dedos,
Ao olhar o teu rosto, d’ouro e cobre....

Minha certeza sofre com mentiras

Minha certeza sofre com mentiras,
Não quero mais colher tal dividendo
Quando o sonho de belo, fica horrendo
A vida sangra, passa toda em tiras...

Meu corpo ao chão, jogado, quando estiras,
Não sei mais se terei, nem bem pretendo...
Passarei a sentir meu mundo, lendo
No carrossel de lendas onde giras...

Nas legendas da sorte, fiz a rima,
Onde tentei poder jogar esgrima,
Com a tenda que cobre meu tesouro;

Meu moinho quebrando, trigo e ouro,
Na tentativa audaz, salvar meu couro,
Procuro a cura, tanta que redima...

Décimas - Falando minha verdade

Falando minha verdade,
Buscando novo cantar,
Procuro tanto teu mar,
Mares dessa saudade;
Reviver a liberdade...
Quero a boca que me nega;
Que nunca, jamais , sossega...
Quero tentar ter amor;
Desses prados sei a flor,
Flores que a lágrima rega...

Falta minha temporada,
A primavera da vida;
Onde não sei despedida,
Na mais feliz alvorada,
Por amores inundada...
Quero ser tua semana,
Uma esperança que emana
De cada novo cantar,
Horizontes por voar...
Minha luta mais temprana...

Turbilhão de sentimentos,
Não queria tempestade,
Mas tudo isso me invade,
Em todos novos momentos,
Tantos velhos tormentos...
A sombra do que já fui,
Nada mais tenho, se exclui
O que tive, o que passei;
Nos braços aonde errei,
Meu mundo se queda, rui...

Num silêncio vou solene,
Buscando por minha luz,
Carregando velha cruz,
Não há dor que não me empene;
Amor que sonhei perene.
Perante tanta vergonha,
Tudo de bom que se sonha,
Passa para pesadelo,
No frio que corta, gelo;
Restará só dor medonha...

Pus meu barco nesse rumo,
Sem leme, o barco virou;
Do nada que me restou,
A saudade dá seu prumo,
Minha vida virou grumo,
Recebi trato da morte,
Não quero ter essa sorte,
Nem quero mais solavanco,
Assisti tudo no banco,
Na arquibancada dei bote...

Fiz a casa desse barro,
Feito de sangue e pudim,
O que mais quero pra mim
É saber que, se me esbarro,
Nas tristezas qu’hoje varro,
Foi revés, mas eu reverto,
Minha dor vive em aperto,
Carteada do destino,
Se tem dor, logo me empino,
No final terei conserto...

Nas matas nos pinheirais,
Tudo que for machadada.
Tudo que suar enxada,
São coisas que pedem mais,
A violência que traz paz,
O corte dessa esperança,
A morte vem de criança,
Nos braços dessa parteira,
Sangrando essa terra inteira,
Engorda a pança se dança...

Desculpe tanta flechada,
Acenderei teu pavio,
Secarei esse teu rio,
Não terás mata fechada,
Não te restarás mais nada,
Nem sombra de natureza,
Quem sabe, sem ter beleza,
Sem ter água pra beber,
Poderá, pois, conceber,
Meu amor em tua mesa...

Terça-feira, Agosto 29, 2006

Trago esse amor sentido sobre a mesa Quadras

Trago esse amor sentido sobre a mesa,
Degustas sem ter pena cada gota...
Minha alma foi pro fundo caiu rota,
Nem lágrima, restou por sobremesa...

Tentei permanecer qual vela acesa,
O vento e tempestade foram vis,
Nos dias em que,tolo,cri feliz,
Foram os de maior, grande tristeza...

Não quero mais saber de sina e sorte,
Nem procuro mais luzes onde cria,
Amor sem ter certezas, fantasia;
Fantasmas que perseguem e sei morte...

Não sinto medo, cálice sem vinho,
Nem trafego tão trôpego, vacilo.
Da morte foste lívido bacilo,
Meu Deus porque me deixas tão sozinho!?

Não haverá perguntas sem respostas,
Tampouco tenho lúdicas manhãs,
Acolho restos, fétidas e vãs,
A vida retalhada nessas postas...

Cheguei a crer, estúpido que eu era,
Que foste minha métrica, meus versos,
Agora sei, restou dos universos,
Um só poema, lúbrica quimera...

Minha certeza, vaga e tão serena,
Não poderia lírica e fatal,
Acreditar n’amor tão abissal,
Mas que mal se descuida, me envenena...

Das carteiras, cigarros são tragados,
Num sem sentido, nexo faz falta,
A dor me inclui vazio, nessa malta,
Quem dera não tivesse abandonado...

Meus versos são satânicos e cínicos

Meus versos são satânicos e cínicos,
Nas orgásmicas líricas promessas,
Meus olhos por ofício, sei, são clínicos.
Partilho teus cenários novas peças...

Das uvas feitas vinho passos mímicos,
Tremulam meus penhores sei que engessas,
Mimetizo fantasmas que sei tímicos,
Nos cântaros que pântanos, regressas.

Variólico cético sou pálido,
Métrico cadencio meu poema,
Metódico fiquei tal qual esquálido,

Etílico sabor, nova jurema,
Impávido, pavio sou inválido,
Nesses absurdos versos, sem ter tema...

Sim, nada mais sincero que teu não

Sim, nada mais sincero que teu não,
Aprendi que viver sem ter promessa,
É como conviver sem dor ou pressa,
Na falta de sentido e de razão...

Deixei as minhas sílabas em vão,
Passei por essa via tão expressa,
Desconhecendo ritmo que se meça
Na dança que começa no salão...

No sal da festa, fresta dessa porta,
A moça estreita a teta, nem me importa,
Queria ter a boca dessa noite;

Deixando minha marca num pernoite;
Mas corta lábio sábio, faz açoite;
De quem nunca queria ver tão morta...

Vencido pela noite e seu cansaço

Vencido pela noite e seu cansaço,
Procuro por sinais de tua vinda;
Teu cheiro ronda a casa. Se deslinda
Em cada canto a marca de teu laço...

Quem me dera dormir no teu regaço,
Sentindo teu perfume que me brinda
Com última esperança; ser ainda
Capaz de conquistar o teu abraço...

Mas, quando a noite some,eu tão sozinho,
Percebo que jamais voltas ao ninho...
Onde fomos felizes de verdade;

Mas bem sei, que querias liberdade,
Voaste, nunca mais, solta; a saudade
Será só minha, livre passarinho...

A noite que me trouxe teu olhar

A noite que me trouxe teu olhar,
Já partiu sem sequer dizer adeus,
Saudade fez adeus dos olhos meus,
Nunca mais poderei saber do mar...

Tua distância,amiga,fez chorar;
Quem sempre quis fugir de escuros breus,
Quem não acreditava, olhos ateus;
Pudesse um dia; cego, procurar,

Pelas vielas; luzes mais audazes,
Quem sempre deparou-se com mordazes
Pesadelos, buscando pela paz;

E agora, quando achava-se capaz,
Teus olhos, de partida, isso me traz
Meus medos, e meus braços incapazes...

Trovas e Contra trovas - Kathleen Mel e Marcos


Saudade, doce lembrança,
Que dói, remói mas não mata...
Da partida fica a data,
No olhar resta a esperança.

Kathleen Mel





Saudade traz calafrio,
No coração de quem ama...
Mesmo no calor, faz frio,
Mas o coração se inflama...

Marcos

Minha vida leva tempo Trovas

Minha vida leva tempo,
O tempo me leva a vida,
Tempo que tem contratempo,
Tenho o tempo da partida...

Espantas minha saudade,
Nesse copo de cachaça.
Amor fiel de verdade,
Me diga aonde se acha!

Vi a curva de Maria,
Restinga de Marambaia,
O vento bem que podia,
Levantar aquela saia...

Em Goiás tem a goiana,
Moça prendada e de fé;
Tem santa e também sacana,
Não pode ver bicho em pé...

Amazonas tem mulher,
Índia morena e mulata;
Seja lá o que Deus quiser,
Eu quero entrar nessa mata...

No Pará tem castanheira,
Tem menina bem bonita;
Quero ter a vida inteira,
Aquela do laço de fita...

Macapá no Amapá,
Tem mulher só de primeira;
Moça bela dá de pá,
Tão perfumada que cheira...

Maranhão foi minha sina,
Quando procurei amar;
Minha bela nordestina,
Tem o cheiro do luar...

No Piauí boi morreu,
E também dói a saudade.
Moça bonita, sou eu
Quem te pede caridade...

Rio Grande lá do Norte,
É a terra de Natal,
Menina que me deu sorte,
Sem você eu passo mal...

No Ceará, Fortaleza,
Encontrei um mulata,
Dona de grande beleza,
Tua fama me arrebata...

Paraíba mulher macho,
Mas bonita como quê,
Tudo que procuro eu acho,
Nesse mapa que é você...

Em Pernambuco, Recife;
A sorte grande, tirei.
Quem me dera ter cacife,
E, da morena, ser rei...

Maceió, nas Alagoas,
É terra que sinto falta;
Dessas mocinhas tão boas,
Uma baixa e outra alta...

No Acre tem Rio Branco,
Tem seringal que fascina;
Subindo nesse tamanco,
Como é boa essa menina...

Em Rondônia, me perdi,
Mas também me encontrei;
Nessa lourinha que vi,
Aprendi tudo que eu sei...

Roraima tem Boa Vista,
Não desisto de você.
Por mais que você resista,
A de amor, depois o bê...

Sergipana foi donzela,
Meu amor foi a pimenta;
Meu coração é só dela,
Faz calor, a gente esquenta...

Baiana, quebro o coqueiro,
Eu dou nó no pingo dágua;
Sem você, o mundo inteiro,
Vive cheinho de mágoa...

Mato Grosso, Cuiabá,
Terra quente sim senhor...
Tanta moça tem por lá,
E também tem meu amor...

Mato Grosso lá do Sul,
Faz a gente suspirar.
Nesse teu olhar azul,
Eu bem aprendi amar...

Em Brasília três poderes,
Três amores para amar.
Tanto quero teus quereres,
Teu querer quero encontrar...

Mineira troce decerto,
Muito ouro e muito brilho.
Olhando assim, bem de perto,
Em você perco meu trilho...

Capixaba de Vitória,
É moça bem envolvente.
Eu te guardo de memória,
Saudade matando a gente...

Carioca moreninha,
Lá n’asfalto ou na favela;
Quem dera; tu fosses minha,
E eu fosse todinho dela!

A paulista tem seu charme,
Elegante pra chuchu;
Não gosta de muito alarme,
Mesmo se for pra Daslu...

Paraná tem moça bela,
Alemoa italiana,
Tem branca, tem amarela,
O meu peito não se engana…

Barriga verde com fé,
Catarina faz estrago;
Vou de a gosto vou a pé,
Quero nadar nesse lago...

Gauchinha bem prendada,
Bem prendada a gauchinha;
Vem cá mulher mais amada,
Vem pra cá ó prenda minha...

Matemática e Cachaça

Josias era um homem trabalhador, honesto e fiel, muito fiel a Deus e a sua querida Joana. Moça bonita, uma morena exuberante, cerca de vinte anos mais jovem que Josias.
Em Santa Martha, Josias trabalhava como sapateiro, um artista famoso, procurado por vários clientes oriundos das redondezas e até da Cachoeiro..
Acontece que, de uns tempos para cá, a Igreja que Josias freqüentava começara a perceber que aquele antigo fiel tinha desaparecido.
Josias começara a beber, primeiramente sozinho e às escondidas, depois cada vez mais frequentemente e a cada dia com menos recato. Até que, um dia, apareceu no barzinho do Gilberto, ponto de encontro da meninada assaz namoradeira do distrito.
A sua estréia foi inesquecível; acabando com todo o estoque de fogo paulista que tinha no bar. Lá pelas quatro horas da manhã foi levado para casa. Totalmente embriagado.
A expulsão da Igreja foi sumária, principalmente depois do dia em que, além de dormir durante o culto dominical resolveu fazer da perna do pastor um urinol improvisado.
O escândalo tomou conta da comunidade, entre assustada e brincalhona.
Quem não gostou nada disso foi Joana, a bela morena se viu, da noite para o dia, vítima das mais indecorosas e maldosas piadas da comunidade.
Mas, a situação estava indo de mal para pior e, apesar de todas as orações, juras e promessas feitas para a salvação do nosso amigo, tudo estava como dantes no quartel de Abrantes, Josias Abrantes, que esse era o nome completo do nosso sapateiro.
As moças e os rapazes de Santa Martha já estavam sentindo a falta do nosso expoente na nobre arte da sapataria, agora as meia-solas e os consertos impossíveis teriam que ser feitos em outro lugar, para prejuízo dos bolsos e da qualidade dos serviços prestados.
Joana, no começo, ainda se manteve fiel ao nosso alcoólatra mas, como, na porta onde entra a miséria sai o amor; não resistiu por muito tempo...
Naquela época, o Governo do Espírito Santo estava contratando novos policiais e Maximiliano era um desses. Lotado em Santa Martha, tinha chegado a pouco tempo na pacata localidade.
João Polino foi o seu instrutor sobre as almas santamartenses mas, por causa de um descuido, se esqueceu de falar sobre Josias. Mas nem precisava, tal a insignificância do pobre cachaceiro...
Gilberto, com pena de Joana, passou a não vender mais bebida alcoólica para o sapateiro mas, nada disso adiantava. Bebia até álcool puro e, se bobeassem, esvaziaria tanque de combustível.
Na noite gélida daquele julho implacável, Maximiliano fazia a sua primeira ronda noturna quando, sem esperar, encontrou um cidadão tentando, de qualquer modo, acertar a chave na fechadura.
Ajudou-o a abrir a porta mas, por dever do ofício e por desconhecer aquele cidadão, perguntou se era ele mesmo que morava ali.
Diante da pergunta, Josias foi incisivo: “Claro que moro, entra comigo e você vai ver”.
Ao adentrar pela casa, Josias foi logo falando: “Tá vendo aquele cara deitado no sofá? É meu cunhado”.
“Vem cá comigo que eu vou te mostrar uma coisa: Aquela mulher deitada aqui no quarto é minha esposa, e aquele camarada deitado ao lado dela; sou eu”.
Ao que o guarda, sem mais nada a perguntar, se despediu e foi-se embora.
Josias deitou-se na cama e ao contar os pés, reparou que havia algo de estranho:
Um pé, dois pés, três, quatro, cinco, seis pés.
Epa! Tem gato nessa tuba! Mas depois, para se tranqüilizar, se levantou e foi até ao pé da cama e recontou: um, dois, três, quatro!
Dois da mulher e dois meus!
É, eu tenho que parar de beber mesmo!

Cordel - A minha sina - capítulo 5 - O Padre e o Sacristão

Depois de ter escapado,
Com ajuda do Saci,
No rolo que me meti,
Por causa de ter botado,
Na cabeça do safado,
Desse maldito diabo,
Uma dupla de quiabo,
Um par de chifre pontudo,
Ajuntando com o rabo,
Quase que nessa m’acabo...

Mas, me lembrei de repente,
Da promessa que bem fiz,
Escapei foi por um triz,
Desd’agora, minha gente,
Tudo ficou diferente,
Não mato mais vagabundo,
Vou ter que correr o mundo,
Que é sina que não escapo,
Partindo noutro sopapo,
Ficando bem sossegado,
É melhor cuidar de gado,
Ou então viver de papo...

Acontece que Marina,
A mulher de Virgulino,
Percebeu logo, deu tino,
Era coisa cristalina,
Pra que eu mude dessa sina,
Era preciso por certo,
Ficar sempre bem desperto,
Senão fazia besteira,
Vou mudar da bandalheira,
Viver um viver correto...

Sabendo que precisava,
Um padre de coroinha,
A moça bem safadinha,
Disse que ali eu achava,
Contadinho como fava,
Um novo rumo pra vida,
Era coisa divertida,
E também mais sem perigo.
Agora; disse, é contigo,
Vai procurar essa lida...

Sacristão foi, na verdade,
Minha nova profissão,
Devida de coração,
Deixei tudo na saudade,
A vida sem crueldade,
Um caso pra se pensar,
Levando a vida a rezar,
Sem ter contrariedade
Os homem dessa cidade,
Não vão ter que reclamar...

Batendo o sino de tarde,
De manhã e de noitinha,
A vida bem de mansinha,
Sem ter mais nenhum alarde
Levando a vida covarde,
Mas com certeza da cura,
Sem ter mais nem noite escura,
Nem buraco adonde eu caia,
Sem preparar nem tocaia,
Vida sem ter amargura...

Passa dia mês e ano,
A lida no mesmo pé,
Sou companheiro da fé.
Vivo a vida sem engano,
Deixando todos meus plano,
Seguindo sem covardia,
Finjo que nunca queria,
Que tivesse mais encrenca,
Tanta beata de penca,
Mas nenhuma merecia...

Acontece que, de noite,
Perto dessa sacristia,
Vez em quando eu ouvia,
Um barulho qual açoite,
E resolvi, de pernoite,
Trabalhar, fazer serão,
Que tremenda confusão,
Eu houvera de escutar,
Parecia complicar,
A minha imaginação...

Saia com saia é fogo,
Duas saias se levanta,
Uma delas era santa,
Outra entrando nesse jogo,
Não adianta nem rogo;
Tá armada essa quizumba,
Preparei a catacumba,
Dessa não vou escapar,
Quando parei preu olhar,
Vi, defrente a minha tumba...

Apois bem, bem reparando,
Uma saia tinha pinto,
Meio branco meio tinto,
O pinto já tava entrando,
Bem devagar, cavucando,
Outra saia bem no fundo,
Nesse buraco profundo,
Nem que todo mundo caia,
Balançando a samambaia,
Quase que se acaba o mundo...

Reparando no saiote,
O outro tinha outra sina,
Não era saia, batina,
Do padre dando pinote,
Remexendo num só xote,
Num tremendo só xotão,
Na tremenda confusão,
A moça num reparei,
Bem quietinho eu voltei,
Silêncio de sacristão...

Nas noites das sextas feiras,
Quando a lua se enchia,
A mesma cena vadia,
As mesmas coisas besteiras,
Eram useiras vezeiras...
Depois dessa temporada,
Passei a num crer em nada,
Também queria trepar,
Não importando o luar,
Nem dia nem madrugada...

Uma das beatas novas,
Mola de muito colchão,
Tinha grande coração
Não precisava mais provas,
De santo fez muitas covas,
Mas não quero santidade,
Estando na flor da idade
Queria era safadeza,
E com essa tal pureza,
Treterice de verdade...

Na sacristia, meu canto,
A moça fez o serviço,
Não deu nenhum enguiço,
Que eu também não era santo,
Rezava, orava entretanto,
De noite sentava pó,
Nunca me sentia só,
A beata não falhava,
Toda noite ela me dava,
Eu queria o fiofó...

A moça num reclamava,
Serviço era de primeira,
Nos mato, na barranceira,
Que gostoso que chupava,
De mansinho o pau entrava,
Fazia estrago com fé,
De lado, banda ou de pé,
Da maneira que pudesse,
Bem do jeito que quisesse,
Só num deixava de ré...

E por mais que prometesse,
Que pedisse pra beata,
Naquele ata não ata,
Não deixava que metesse,
Nem tampouco que mexesse...
Mas, depois de tanta reza,
Beata que não se preza,
Não pode mais resistir,
Se, agora, quisesse vir,
Deixava, mas sem reveza!

A danada abriu tudinho,
Arreganhando essa bunda,
É nela que tudo afunda,
Passei a mão com carinho,
Fui botando com jeitinho;
Mas de repente gritou,
Doeu não doeu, chegou,
Era o padre que chegava,
E bem logo me avistava,
Nessa hora tudo brochou!

Me chamando de safado,
Botou a moça pra fora,
To ferrado, disse agora,
Chamei o padre de lado,
E falei ter encontrado,
Ele com a mão na massa,
Depressa perdeu a graça,
Me pediu que eu me calasse,
Que pra ninguém eu contasse,
Que seria uma desgraça!

Prometi, ficar bem quieto,
Não contar para ninguém,
Se calasse ele também,
Que, naquele mesmo teto,
Mulher que entrou saiu reto,
Não precisava ter medo,
Tava guardado o segredo,
O safado então pediu,
A beata que ele viu,
Botasse somente um dedo...

Me falou de troca troca,
Ele me emprestava a sua,
Desde que deixasse nua,
A minha para a minhoca
Entrar de leve na toca...
Falei o troço tá feito,
Assim fica bem direito,
Faça assim como quiser,
Mas pergunte pra mulher
Se ela topa esse malfeito...

Depois de muita conversa,
Ele c’a dele eu c’a minha
Combinamo na noitinha,
Dessa vez sem muita pressa,
Nessa reza que confessa,
A gente ia ter festança,
De comida enche a pança,
Festa nessa noite inteira,
Na próxima sexta feira,
Tava feita tal lambança...

Sexta feira tá chegada,
Lua cheia lá no céu,
Vamos fazer escarcéu,
A noite não vale nada,
Vamos varar madrugada,
Numa boa da suruba,
Quando um entra, outro entuba,
Na beata ponho fé,
Mas também não fico a pé,
Na do padre, pego a juba...

Quando começou a liça,
Reparei meio de banda,
Agora é que se desanda,
Senti cheiro de carniça
Minha vida agora enguiça.
Tô ferrado, Deus me livre,
Das desgraças que já tive,
Nas quebradas dessa vida,
Essa era uma das fedida,
Um gemido não contive...

Ao ver que quem me abraçava,
Coisa que a gente repara,
Quando olhei pra aquela cara,
Vi que a coisa se lascava,
Ferradim agora estava...
A mulher que eu ia ter,
Quando deu-se a conhecer,
Tô fudido nessa peta,
Era a mulher do capeta,
Falta me reconhecer!

A danada então me viu,
E lembrou daquela briga,
Que era coisa bem antiga,
Um sorriso então abriu,
Fui pra puta que pariu,
Com os óio esbugaiado,
No mundo desarvorado,
Corri sem olha prá trás,
A pilantra veio atrás,
Me xingando de viado...

Agora essa minha lida,
Não tem mais nem solução,
O danado capetão,
Chifrudo e fulo da vida,
Por causa dessa bandida,
Não vai me dar mais sossego,
Nem se eu lhe pedir arrego
Não me deixa mais em paz,
E brigar com Satanás,
É não ter mais aconchego...

Bela lua, princesa de cristal

Bela lua, princesa de cristal,
Nos teus braços, tenho o delirante
Sonho de me saber um ser gigante,
Lua, que se fez nova, maioral,

Quando cobres as trevas dess’astral,
Tu és tão envolvente e radiante,
Quedo-me tão silente só, diante
De teu belo luar, descomunal...

Lua, tua distância tão amiga,
Não me permite, nunca mais, consiga;
Na eternidade louca de teu brilho,

Quem me dera saber onde teu filho,
Esse cometa errante que, sem trilho,
Vagueia numa busca tão antiga...

Descansando nos braços da morena

Descansando nos braços da morena,
Eu me lembro da loura que deixei.
Mulata, eu gostaria de ser rei,
Beijando essa boquinha tão pequena...

Amor, quando é demais, logo envenena.
A campina que passo e que passei,
Muitas vezes sem rumo, desviei;
A saudade, de longe inda m’acena...

Quero tanto perguntas sem resposta,
No fundo, todo mundo sempre aposta,
Num amor que era pouco e se acabou...

Mas não quero saber se estou ou vou,
Nem sequer me interessa o que passou...
Eu quero, tão somente, a quem se gosta...

A roupa espalhada pelo chão

A roupa espalhada pelo chão,
Me dá, simplesmente, essa certeza;
De quem me prometeu a realeza,
Devora o vagabundo coração...

Teus passos insensíveis no porão,
As marcas desmentindo uma princesa;
As manchas sanguinárias sobre a mesa,
Demonstram-me verdades da lição

Aprendida na noite que vieste...
Que por mais que se pense no cipreste,
Que por maior que seja seu tamanho,

E por menor que seja, tão tacanho,
O mais rasteiro mato, que eu apanho,
O amor só vale o quanto que se investe...

Bêbado de saudades de você

Bêbado de saudades de você,
Nas madrugadas, fugas e senzala,
Buscando esse perfume pela sala,
O perfume que trouxe, sem querer,

A lembrança do tempo de viver,
Onde estava mil vezes numa gala
Me sentia feliz, minha alma embala,
Mas agora procuro em vão, cadê?

Aprendi com você, felicidade,
É possível viver na claridade.
Foi meu melhor tempo nessa vida,

Mas, bem cedo senti que, despedida,
É palavra cruel, mesmo sentida,
Em pleno amanhecer da mocidade..

Não que me seja assim, muito crível

Não que me seja assim, muito crível,
Mas quem me dera tento com teu laço;
Vivendo desse amor onde embaraço;
O sabor da vitória é impossível...

E chega de tentar subir um nível,
Quando nada farei sem ter cansaço...
O mundo que pensei sem teu abraço,
De tão triste, seria incompatível...

Quero a lembrança límpida e gentil,
De todos os carinhos, sou sutil.
Mergulho nos teus seios, boca aberta;

Esperando, talvez, por esse alerta;
Que nunca mais virá, festa repleta,
Dos desejos mais loucos, meu ardil...

As loas que cantei para você

As loas que cantei para você,
Não foram, simplesmente, as que eu queria.
A noite transformada num quase dia,
Remetendo a alegria, ao meu sofrer...

Nunca foste verdades nem por que,
Mas a quis como nunca mais teria,
Esse calado peito sem Maria,
No mais completo verbo do querer...

Minha palavra tenta ser mais pura,
A vida não consegue mais brandura.
Seu endereço serve de morada,

Para quem já tentou, não deu em nada;
Para quem pensou nova mão pousada
Nas costas da mulher, quadro e moldura...

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Trovas Nas ondas do rio mar

Nas ondas do rio mar,
Na cachoeira do santo;
Maria, quero casar;
Saudade traz o seu manto.

Vi nascendo meu amor,
Nos braços do bem querer;
Não me deixe, por favor,
Sem você posso morrer...

Quero o gosto da Maria,
Na boca que Deus me deu;
Meia noite meio dia,
Quem gosta dela sou eu!

Vi carranca no Nordeste,
Em Minas eu vi também;
Eta amor cabra da peste,
Chorando por outro alguém...

Minha vida fez enganos,
Enganei, ela, também.
A vida trouxe seus planos,
Coração tamanho trem...

Beija flor que cria ninho,
Nas asas do seu amor;
Beijando amor vou sozinho,
No fundo nem beijo a flor...

Quis fazer uma trovinha,
Com a cara da Maria;
Difícil fazer covinha,
Meu amor eu não sabia...

Ritinha tem um buquê
De rosas e margaridas,
Meu amor, eu sem você,
Só conheço as despedidas...

Na beira daquele lago,
Tem um canto diferente
Cigarro quando não trago,
Estraga a vida da gente...

Bola que bateu na trave,
Depois entrou gritei gol,
Do coração não sei chave,
Passarinho que voou...

Eu recebi a resposta
Pra carta que lhe mandei,
Eu já perdi essa aposta,
Não tem rainha nem rei...

Trovas são como recados,
Em quatro versos sentidos,
Olhando bem para os lados,
Meu amor, não dê ouvidos...

Vim de terra diferente,
As moças não têm segredo;
Quando o povo tá doente,
O doutor foge de medo...

Nas dentes dessa engrenagem,
Os meus dentes eu perdi,
Vivo fazendo bobagem,
Só por isso, estou aqui...

Vento traz a tempestade,
Raio, relampo e trovão,
Meu amor, que crueldade,
Maltrata meu coração...

Deu coceira no meu pé,
Achei que estava doente,
Não foi nada, foi chulé,
De seu amor, era crente...

Na reza que tanto reza,
Não fala mais em Senhor,
Coração quando se preza,
Dispara forte n’amor...

Fiz um verso bem moderno,
O molde esqueci depois,
Parecendo com meu terno,
Tira cem coloca dois...

Encerrando essa sessão,
De versos bem mal rimados.
Atravesso meu perdão,
Com suor dos desgraçados...

Cantas nos bastidores dessa vida

Cantas nos bastidores dessa vida,
A voz cansada estraga toda a festa.
Muito do que já fomos, pela fresta;
Da janela se perde mais vencida...

Não quebro meu pendão nem vem parida,
A morte que queimava essa floresta;
Tentei fazer sertões, mas nada resta,
Procuro por senões, cadê guarida?

Nas folhas do caderno teu sinal,
As horas que sangramos no jornal;
Serviram de estocada dessa faca.

Não consigo voar, tudo me estaca,
Caminhando serei, sangue e cloaca.
Não quero ser rei, lúbrico sal...

Pernas estão cansadas dessa lida

Pernas estão cansadas dessa lida;
Estrada que percorro não dá mais,
Quisera estar vazio, mas demais,
Não temo nem chegada nem partida...

Vasculho nas gavetas Margarida,
Encontro simplesmente esses boçais
Escritos que fizeste nos jornais,
Dizendo que querias despedida...

No meu cabelo sinto tuas presas,
E no pescoço, tento ser mordaz,
Passando pelos olhos, sinto, tesas.

Servindo coca cola se és capaz,
Mexendo nas entranhas correnteza,
Aperta suavemente essa tenaz...

Quero momento, sentimento e esmo

Quero momento, sentimento e esmo;
Na mesma forma, fornalha e fogo;
No jogo em riste, lanças e dardos...
Meus fardos são falsos e falidos...
Tento intento novo e revisto,
Me desvio e cio, vicio e previsto,
Visto quê, jamais poderei errei e suo...
Sou o que soa, absurdo e vôo, tenaz...
Audaz atroz atriz atrás de tantas quantas
Fossem as possíveis peças...
Me peças nada adia adora, a hora agora...
Me deixo ser seixo, a gueixa se esvai...
Vãos da porta, morta a solidão, dão créditos...
Méritos e atritos, detritos sou mito, minto...
Tinto meu sangue, mangue, zona e ozônio,
Axônio e Estônia, estranho como um trino,
Lá trino e latino, um átimo um último, hino...
Meus olhos, teus óleos, girassol, giramundo...
Vagabundo, sou seu sal, seu céu, véu e ventania...
Visto meus tafetás meus confetes e tapetes...
Visto que fosse um começo de brisa,
A vida me avisa, vista a lua;
Deixe-a nua,
A rua
Lá...

Salmo 8

Puseste Tua glória nos Teus céus,
Tua força, ordenaste nos infantes,
Para calar inimigos, bem antes,
Lua e estrelas preparas, lindo véu.

Homem, simples mortal, mas o visitas;
E sempre se recorda do rebento.
Quase tal qual um anjo, solto ao vento,
Nos fizeste, dando-nos as pepitas,

Ovelhas, bois, campestres animais;
Aves do céu, os peixes desse mar,
Sobre todas as coisas, dominar...
Por isso; meus irmãos, a Deus, louvais...

Tua beleza, caminhando livre

Tua beleza, caminhando livre
Na sala, flutuando a cada passo;
Qual fosse garça, graças no cansaço;
Que, por ser sonhador, eu tanto tive...

As minhas noites, tudo, enfim, revive,
Na delícia sutil; sem embaraço,
Vou seguindo-te manso, traço a traço;
Desenhas, mal percebes, um declive.

O murmúrio da brisa, da sacada
Pressinto teu suave, éter, respiro.
No momento seguinte, me retiro;

Procuro então, sentir-te, em vão, deliro.
O teu andar sereno, esvai-se em nada;
És fátua, visão na madrugada...

Salmo 7

Confio em ti, Senhor! Do que persegue
Me livre, não permita que minh’alma
Seja despedaçada sem que a calma
Da liberdade, seja enfim, entregue...

Mas se perversidade ,em minhas mãos,
Tomar lugar, permita que m’alcance
O inimigo e reduza, num só lance,
Toda glória e respeito dos irmãos!

Pois tenha fim malícia dos impuros,
O meu Senhor, escudo, me proteja
Daquele que, somente, me deseja
O mal, tuas espadas sobr’os duros,

Quem não se converter, já tem armado,
Espada, arco, mortais, bem afiadas...
Na cova que cavaste, verás, marcadas,
As vidas que escolheram, o lado errado...

Su’obra cairá sobr’a cabeça,
Retos de coração serão os salvos;
Entretanto dos ímpios, Farás alvos,
Louvemos Meu Senhor, que eu O mereça...

Gilberto e a Apendicite

Na sua adolescência Gilberto era um poço de saúde. Menino criado com vitaminas preparadas por Dona Rita e na base de muita fruta pega nos quintais de Santa Martha, às custas de alguns sustos e um ou outro tiro de sal na bunda, crescia à olhos vistos..
As costas largas cultivadas nos banhos de rio, demonstravam um exemplo claro de que vida livre, com exercícios físicos e boa alimentação fazem, realmente, um efeito maravilhoso...
Mas, num dia quase fatídico, amanheceu com uma dor na barriga. A dorzinha que, de início, era fraquinha, foi se intensificando.
A princípio dona Rita achou que as lombrigas estariam fazendo uma festinha no abdômen do rapaz mas, como as gotas de elixir paregórico não tiveram o efeito esperado, começou a se preocupar.
Em pouco tempo, Beto se contorcia de dores, gemendo e gritando, desesperadamente.
Como Santa Martha não tinha médico e, muito menos, hospital, a solução era levar o pobrezinho para Ibitirama, onde há um posto de atendimento, bem equipado por sinal.
O médico plantonista era um tal de Doutor Marcos Valério, um ortopedista que começara a trabalhar ali há pouco tempo.
Ao ver o rapaz se contorcendo e gemendo, ao apalpar a barriga, percebeu que o quadro merecia uma atenção especial.
A apendicite aguda era uma hipótese que não poderia ser descartada.
Como o laboratório era de difícil acesso, e não conseguia vaga para transferir o pobre rapaz, mandou verificar as temperaturas anal e axilar.
A diferença dessas temperaturas, muitas vezes, demonstra a possibilidade de apendicite ou de processo infeccioso naquela região.
O resultado tinha sido inconclusivo, então mandou pegar uma veia do paciente, colocar um soro e observar.
Passadas duas horas, com a piora do quadro, mandou reavaliar as temperaturas para constatar se tinha havido alguma mudança.
Nada, o resultado tinha sido igual ao anterior. A vaga não aparecia e Beto, entre manhoso e dolorido, parecia um bezerro desmamado, gritando e esperneando a todo momento.
Depois de um outro período, nova averiguação, também inconclusiva...
Nesse meio tempo, começou uma tempestade daquelas que só acontecem nos contos e nas histórias...
A chuva desabando, raios e trovões espocando a cada momento.
Gilberto, por sua vez, gritando e gemendo.
Temperatura vai, temperatura vem...
Tudo correndo desta maneira até que, para desespero de todos, aconteceu o pior.
A noite se aproximara e a luz, não resistindo às intempéries do tempo, acabou.
Sala do repouso lotada, a enfermeira não teve alternativa; acendeu uma vela.
Beto, no desespero da dor, ao ver aquela luz bruxuleante se aproximando e escaldado de tanto termômetro pra cá, termômetro pra lá, não titubeou:
-Tudo bem, mas apaga isso primeiro!

Castanha do castanheiro Trovas

Castanha do castanheiro,
E do pinheiro, o pinhão...
Amor, pra ser verdadeiro,
Não precisa de perdão...

Recebi tanta coragem,
Desde o dia que nasci;
Amor foi minha bobagem,
Nos teus braços me perdi...

Andréa tem, com certeza,
Um olhar amendoado;
Quando mira, traz beleza,
É a flor do meu cerrado...

Menina pensa direito,
Não me faça covardia.
Amor que bate no peito,
Via batendo todo dia...

Recebi o teu recado,
Te respondo nos meus versos;
Amor é jogo marcado,
Então procuro os ingressos...

Bate sino da matriz,
Anuncia o casamento.
Noivo seguindo feliz,
Noiva n’arrependimento...

Me restam poucas lembranças,
Memória é coisa que trai;
Brincavam duas crianças,
Saudade, no vento, vai...

Um dia, simplesmente, foi embora

Um dia, simplesmente, foi embora,
Deixando tão somente teu retrato;
Lágrima denuncia: faltou tato,
Até minha viola, tudo chora...

Quem me dera poder estar agora,
Ao lado de quem fora meu regato,
De quem me foi servida, fino prato;
Apenas solidão, triste, vigora...

Como és bela, Lili, minha sonata;
Abrindo a madrugada, a serenata,
Traduz o que senti, restou sequer

Um retrato, maltrato de mulher,
Esquecido, jogado; um bem me quer,
Guardado na moldura, toda em prata...

Meu barco, navegante sem destino

Meu barco, navegante sem destino,
Errando pelos vários oceanos...
Piratas dos amores meus enganos,
Vagando nos meus sonhos de menino.

Recebo teus chamados, bato o sino,
Desmancho minha vida sem ter planos,
Meus dias são resgates dos meus anos,
Nas mãos de minha morte, desatino...

Revendo toda sorte de naufrágios,
Eu tenho me cobrado, tantos ágios.
Venero tuas rédeas, sou corcel;

Procuro meu futuro no teu céu,
A boca azeda medra sem ter mel,
Meu caminho vai pleno d’apanágios...

Meu barco, navegante sem destino

Meu barco, navegante sem destino,
Errando pelos vários oceanos...
Piratas dos amores meus enganos,
Vagando nos meus sonhos de menino.

Recebo teus chamados, bato o sino,
Desmancho minha vida sem ter planos,
Meus dias são resgates dos meus anos,
Nas mãos de minha morte, desatino...

Revendo toda sorte de naufrágios,
Eu tenho me cobrado, tantos ágios.
Venero tuas rédeas, sou corcel;

Procuro meu futuro no teu céu,
A boca azeda medra sem ter mel,
Meu caminho vai pleno d’apanágios...

Trazendo a mão cansada do plantio

Trazendo a mão cansada do plantio,
Buscando na cachaça, seu consolo,
Muitas vezes achando que foi tolo,
Como é difícil; terra tem seu cio...

O chão pesado, pernas no vazio,
Compressora essa vida, traz seu rolo,
No final sobrará, velório e bolo.
De tudo que restou, nem mais um pio...

Lavrando a terra, chuvas trazem festa;
Semente brota, cobrem toda fresta
Do solo mais gentil, por vezes, fera...

Nas mãos cansadas, tanta vida gera,
Dos seus olhos distantes, a cratera
Dessa desesperança é o que, enfim, resta...

No que fui, valentia foi piada

No que fui, valentia foi piada,
Tive sorrisos, faço minhas contas.
Foram precisos, minhas iras tontas;
Nada passou de nada, simples nada...

Agora invento minha madrugada,
Estrelas adormecem, suas pontas
Nunca mais chegariam; nem apontas
Mais seus olhos;certeiras tais flechadas...

Mandarim sem mistérios, por sinal,
Minha fúria contida, carnaval...
Eu masco minha vida, faço planos...

Mas bem mais sutilmente, passam anos.
Tramas e desenredos são enganos.
Nada mais levarei, resta o final...

Tenho tantas vertigens; dói joelho

Tenho tantas vertigens; dói joelho,
Pernas andam cansadas e pesadas.
Meus olhos estão bem vermelhos,
A vida vai passando, temporadas...

Minhas mãos doloridas, cada artelho
Trazendo seus sinais, cartas marcadas;
As rugas companheiras deste espelho,
Demonstram intempéries das jornadas...

Tudo envelhece, sinto, o tempo corta;
A cada dia, sigo devagar.
Essa distância, tanta vida morta,

Procuro convencer-me, procurar
O diabo que está atrás da porta;
Mas nada encontrarei, serei meu par...

Cordel - A minha sina - capítulo 4 - No dia em que o Diabo criou chifre

Depois de ter conhecido,
O neto de Lampião,
Lenda viva do sertão,
E tendo me convencido
Que nada mais é perdido;
Fiz pro moço, uma proposta,
Coisa de gente que gosta,
Ir pelo sertão afora,
Sem ter dia mês e hora;
Mas partiu, nem deu resposta...

Sozinho pelas estradas,
No meio de tanta areia,
Procurando pela teia,
Seguindo novas pegadas,
Esperando outras jornadas.
Homem valente de fato,
Encontrei uns três ou quatro,
Mas não queria de sócio
A vida precisa d’ócio,
Pescando nesse regato.

Acontece que sujeito
Que vive dessa maneira,
Pulando da barranceira,
Não pode ver um mal feito,
Acha que tá no direito,
De se meter em rabuda,
Não pode ver da miúda
Que entra em nova enrascada,
Saindo de madrugada,
Atrás de moça taluda...

Joaquim me deu pousada,
Pros lado do Patrocínio,
Falou num tal vaticínio,
Coisa das muito enrolada,
Botei meu pé, nova estrada,
E parti bem de mansinho,
Levando meus bagulhinho,
Guardados no meu bornal,
Quarta feira, carnaval,
Ia de novo sozinho...

Nessa mesma quarta feira,
Que é de cinzas pode crer
Montado num zabelê
Filho duma égua estradeira,
Pru móde ser mais ligeira,
Que eu precisava chegar,
Determinado lugar,
Na curva do Zebedeu,
E lá mesmo é que se deu
Isso que eu vou lhe contar...

Chegando nessa serrinha,
Que é lugar bem diferente,
Um monte de gente crente,
Disse que toda tardinha,
Avoa umas avezinha
Fazendo gesto indecente,
Mas é coisa de veneta,
Imagina, coça as teta,
Dando banana pro povo,
Os cabra mexe nos ovo,
Que isso é coisa do capeta!

Fui pagando para ver,
No que essa história daria,
Subindo na ventania,
Sem ter medo nem por que,
Esse trem vou resolver.
Num tem nem mais precisão,
De fazer sua oração,
Sou um cabra penitente,
Num tenho medo de gente,
Que dirá d’assombração!

O lugar era bonito,
Tinha cor do meu tiê
No meu velho metiê
Nunca tive tanto grito,
De mulher vaca e cabrito,
Zoando feito vespeiro,
Até fiquei mei besteiro,
Mas não arredei meu pé,
Chegando com pontapé,
Entrei nesse pardieiro.

No meio da confusão,
Reparei numa bobagem,
Reparei na sacanagem
Que não tinha nem perdão,
Um tremendo mocetão,
Tava toda machucada,
A bunda toda lanhada,
Riscada com um chicote,
Mesma hora dei o bote,
Levando a destemperada...

Moça bonita e dengosa,
Tinha os olhos rabichados,
Os lábios grossos, inchados,
Um perfume igual a rosa,
Eta bichinha gostosa!
Eu, na hora pensei nela,
Arretada matusquela,
Banquete prum homem só,
Nem pensei em ter mais dó,
Esqueci dessa esparela...

A moça num conseguia,
Falar na minha linguagem,
Mas pra quem quer sacanagem,
Era de pouca valia,
Entender o que dizia,
Não preciso nem falar,
Comecei a cutucar,
A moça de pouco a pouco
O troço deixando louco
Vontade de não parar...

Que boca boa, eu beijava,
A minha mão bem safada,
Fazia sua jornada,
Enquanto ela delirava,
Sua blusa eu abaixava,
As tetas todas macias,
Minhas mãos eram vadias,
Chegavam nas suas coxas,
As florizinhas mais roxas,
Não tinham tais serventias...

A perna da moça aberta,
Esperando pela clava,
Tanto gozo que se lava,
A danadinha era esperta,
Coisa boa que se flerta
Nunca se esquece mais não,
Deitei gostosa no chão.
Cavalguei essa danada,
Minha vida desgraçada,
Parecia ter perdão...

Tanto gosto, tanta festa,
Depressa a noite chegou
Quem gozou não reparou
Uma porrada na testa,
Uma pancada indigesta,
Acabei desacordado,
Quando vi, tava danado,
No meio desse barraco
Que recendia a sovaco,
Misturado com meleca
Reparei nessa boneca,
Mas sentindo do meu saco...

Num canto, tava amarrado,
Pelo saco sim senhor,
Por isso senti a dor,
Um calor desesperado
Tô frito, talvez assado,
Eu pensei por um segundo,
Nessa merda eu me afundo,
Não vai sobrar nem pentelho,
Vi um cabra de vermelho,
Mais feio que o tal Raimundo...

A morte não tinha pressa,
Fiz promessa de jurar,
Que nunca mais vou matar,
A minha mão Deus engessa,
Atadura nem compressa,
Precisa mais ter valor,
Nunca mais um matador,
Nunca mais um sanguinário,
Se meu Deus me der contrário,
Prometo agir com amor...

Apois bem, nem compensava
A morte via de perto,
Nem podia ser esperto,
O troço se complicava,
O moço os olhos injetava,
Com brabeza sem igual,
Meu último carnaval,
Era fava mais contada,
Toda tristeza instalada
Morto naquele arraial...

Uma voz de touro bravo,
Foi berrada neste instante,
Com três metro o tal gigante,
Me disse: em teu sangue lavo
Tu não serves nem pra escravo,
Depois dessa que aprontou,
Essa mulher que pegou,
Fez safadeza de fato,
Fez dela gato e sapato,
Pro chão, você arrastou...

Essa dona é melindrosa,
Com ela não bole não,
Ela é minha tentação,
Do jardim é minha rosa,
Eu sei que ela é bem fogosa,
Já lhe dei muita pancada,
Mas bem sei que a desgraçada,
É chegada em aprontar,
Qualquer um que for chegar,
A vadia é bem chegada...

Mas nunca tinha me dado,
Tanto trabalho afinal
Nesse fim de carnaval,
Parece ter despertado,
O que tem de mais tarado,
As pernas não sossegou
Depressa ela se entregou
A um vagabundo sem eira,
Depois de tanta besteira,
Um par de chifre botou...

A minha cabeça lisa,
Tá ficando encaroçada,
Por causa da disgramada,
Que tanta lição precisa,
Em teus bagos se batiza,
Não vai sobrar mais nada,
Nem sombra dessa safada,
Nem de você seu matuto,
Agora cansei, fiquei puto
Essa conversa fiada!

O trem estava fedendo,
Eu não vi mais solução,
Amarrado no culhão,
O calor já tava ardendo,
Eu pensei: já ‘to morrendo,
Num tem outro jeito não,
Pedi a Deus seu perdão,
E rezei com muita fé,
Mas, de repente, num pé
De vento uma solução...

Quando senti ventania,
Olhei de beira pro lado,
O troço tava arretado,
Meu Bom Deus me protegia,
Apesar das covardia
Que tanto fiz por aí,
Nesse momento eu senti,
Que meu Pai não me deixara,
Nesse vento que ventara,
Surgiu, do nada, o Saci...

Junto com o Pererê
Tava amigo Virgulino,
Que em todo esse desatino,
Nunca iria se esquecer
Dum amigo pra valer,
Companheiro do perneta,
Um tocador de trombeta,
Um arcanjo lá do céu,
Que no meio desse escarcéu,
Deu porrada no capeta!

Trazia de tira colo,
Aquela santa menina,
Ela mesmo, a tal Marina,
Por pouco que eu não me enrolo,
Vendo nesse mesmo solo,
O trio que me salvara,
Tomar vergonha na cara
E parar de safadeza,
Me perdendo nas beleza,
Vou parar com essa tara...

Planeta Azul

A primeira vez nua, em nosso espaço;
Que tão distante, longe sem embaço,
Te desnudaste inteira, Terra amiga,
Cantávamos felizes, u’a cantiga...

Eras muito mais bela; nenhum traço
Desenhara-te linda assim; Picasso,
Nem Da Vinci, nenhum deles; me diga
Quem pudera pensar que a Terra antiga,

De beleza gentil e inesperada,
Fosse roubar teus olhos, minha amada;
Pois tão sedenta andava só de luz;

Assim, mal percebendo o triste blues,
Num momento de glória, apaixonada,
A Terra, qual teus olhos, tão azuis...

A paz

Meu caminho seguindo pela vida,
Transcorrendo gentil e tão risonho;
E mal contendo, luzes em meu sonho...
Recebendo o calor na despedida.

Em todos teus respiros, ó querida;
Muitas vezes deparo, tão medonho
Quanto cruel, deixando-me tristonho...
Por tantas vezes, foste já vencida...

Morrer por ti, me sinto até capaz;
Quanta delícia, amiga, o vento traz...
Nas tuas mãos, tão alvas quanto belas,

Quisera Deus, poder tê-las singelas,
Na ternura do cais, saveiros, velas...
Companheira possível, és a PAZ...

Domingo, Agosto 27, 2006

Gauche na vida

Quando meu nascimento aconteceu,
Houve silêncios, vagos murmurinhos;
Jogado ao canto, lerdos passarinhos,
Fingiam nem cantar, entristeceu...

Em tal momento obscuro, tanto breu,
Coloriu minhas ruas, meus caminhos;
E negra solidão, somos vizinhos...
Nascido esse moleque, mundo ateu...

A morte preparou a despedida,
Enfim não resistiu, foi vencida...
Ludibriei a sorte mais safada.

De tudo me restou, bem pouco ou nada.
A voz desafinou, descompassada...
Como a profetizar: gauche na vida!


Em Homenagem a Carlos, outro gauche na vida...

Conhaque

Confusão decidida num segundo.
E vamos recordar o que foi fado.
Não deixes, na parede, esse recado.
Senão eu não prossigo nesse mundo...

Profusão do que tanto sei profundo,
Na maresia quero ser salgado.
Valentia e maré trazem pescado,
Mundo redondo, mundo tão rotundo...

Marionete, sinto, sou movido;
Na sensação, dever que foi cumprido...
Minha emoção, cadência sem poema.

E se fosse sertão, seria emblema;
Mas nada mais será, a vida rema.
Conhaque me deixando, comovido...

Nada mais

Batucando meu samba sem compasso,
Vou vivendo sem passo e sem poema;
O que demais que a vida nunca teima.
É, da morte, sentir medo e cagaço...

Sinto-me, tantas vezes, um palhaço;
Perdido vagabundo sem ter lema;
Não quero clara, quero ponto, um trema.
Na fonte fiz, farei; mas nunca faço...

Na sordidez leal que tu me tinhas,
Amor que era bem pouco, parcas linhas.
Vestido tirolês: comenta leite...

Não quero nem inglês, talvez azeite;
Nem estou procurando quem aceite,
Fazer de todo canto, essas vizinhas...

Teus seios, doces seios, tão macios...

Teus seios, doces seios, tão macios...
Quem dera poder neles me perder;
Eu saberia então o que é viver!
Quisera conhecer teus vários rios...

Nas coxas que deflagram mais vadios,
Orgasmos são procuras, quero ter;
Delicioso campo do prazer.
Quem dera misturar os nossos cios!

Penetrando com calma, devagar,
Essa estrada tão bela lembra o mar;
N’umidade gentil; teu belo sexo.

Venceria, feliz, o meu complexo,
Viveria contigo: seu anexo...
Explodindo os dois juntos num gozar!

O meu tempero é tua boca amarga

O meu tempero é tua boca amarga;
Meus dentes, tentativas de mordida.
Não quero mais sangrar a despedida,
Nem quero sentir tudo qu’alma embarga...

Minha carta, postada, tudo alarga;
Só meu desejo, nunca mais traz vida,
Minha vida, fecunda e bem curtida;
Não suporta, nos ombros, essa carga...

Disseste-me verdades incompletas,
Navegante perdido, tão sem metas.
Meu rumo, sem ter prumo nem ter rima.

Faz de tudo, machuca a auto-estima,
Finges doçura, falsa não és lima.
Estradas curvas, mesmo nessas retas...

Ninguém acertou na mosca

Final de campeonato, jogo entre Pedra Roxa e Santa Martha. Estádio lotado!
Na arquibancada, estavam sentados Dadinho e Gilberto quando, ao perguntar as horas para um sujeito que estava sentado na carreira atrás, tiveram uma surpresa no mínimo agradável.
Zezinha Muriçoca, uma das mais belas e desejadas garotas de Pedra Roxa estava sentada dois degraus acima.
Sentada e usando uma minissaia extremamente convidativa e reveladora.
Reveladora não era a palavra correta, já que tal visão gerara uma dúvida atroz.
Gilberto que tinha se aposentado precocemente no futebol, depois dos episódios já descritos sobre a confusão dos bombons e do apelido, não titubeou.
Afirmou peremptoriamente que a deliciosa moçoila estava usando uma calcinha preta.
No que foi, imediatamente, desmentido por Dadinho. Calcinha preta que nada, estava era mesmo sem calcinha!
Calcinha preta pra cá, sem calcinha prá lá, a discussão estava esquentando.
Até que resolveram apostar, aposta entre irmãos, coisa de dez reais, por aí.
Para que não houvesse mentiras e isso Beto não admitia, amigo incondicional da verdade que era, decidiram pedir ajuda a Pedro Gambá, a essas alturas um abstêmio totalmente confiável.
Pedro, imediatamente aceitou a missão “delicada”.
Iria chegar até bem perto de Zezinha Muriçoca e decidiria a questão.
O jogo tinha começado e todo o público estava empolgado com a atuação do time de Santa Martha, todos, exceto Zezinha que estava preocupada com o time de Pedra Roxa, além de Gilberto e Dadinho, mais preocupados com as calçolas da garota.
Pedro Gambá estava demorando e Dadinho, desconfiado, solicitou que alguém fosse chamá-lo.
Quando foi encontrado, olhar fixo entre as pernas da incauta moça, pediu um instante e que iria descer em seguida.
Dez minutos depois, eis que surge o juiz da partida entre Gilberto e Dadinho.
Ansiosos com o final da contenda, perguntaram em solilóquio ao famoso Pedro Gambá.
-E aí? Quem ganhou?
Pedro, para surpresa de todos, deu um veredicto inusitado e inesperado.
-É, para falar a verdade, deu empate!
-Como? Empate?
-Não é calcinha preta e nem ela está sem calcinha...
Aquilo que vocês viram, é MOSCA...

O Cãozinho

Menina muito esperta, Ritinha tinha um defeito; a curiosidade em excesso cria situações inauditas.
Oracina, sua irmã adorava cães e gatos; e os tivera às dezenas; se não fosse João Polino, aquela casa em Santa Martha teria se transformado num verdadeiro asilo de cães abandonados.
Acontece que um deles, o Plutão, era o xodó de Oracina.
Muitas vezes brigara com seus irmãos por causa daquele cãozinho.
Realmente o bicho era bonito, todo negro e com uma pequena mancha branca próximo aos olhos, dando uma sensação de uma bela máscara de carnaval; Joãozinho, muito sacana tinha colocado o apelido de Máscara Branca no animalzinho, em homenagem à famosa marchinha de carnaval muito tocada na época.
Plutão resistira a todas as tentativas de expulsão que João Polino efetuara.
Vira-latas sim, mas com classe e beleza. Manso até onde podia chegar, Plutão era o companheiro mais constante de Oracina.
Quando saia quer fosse de noite ou de dia, Plutão a acompanhava, fiel e companheiro.
Ritinha, crescendo junto com o animal, pois eram praticamente da mesma idade, tivera por ele um afeto quase que fraternal.
Adorava brincar com o animalzinho o que, muitas vezes, causara ciúmes em dona Rita e mesmo em Oracina.
Numa tarde, lá pelos idos de 1979, deu-se uma enorme confusão na casa.
Corre-corre e latidos misturados com desespero. O pobre animal corria feito louco pela casa a fora, sem que ninguém entendesse por que.
Oracina, com medo de que seu bibelozinho estivesse doente e, pior, fosse necessário sacrificá-lo, entrou em pânico.
Nisso, com a cara mais lavada do mundo, Ritinha adentra a sala, esclarecedora:
-O que houve, pergunta Oracina à sua irmã caçula.
A resposta veio rápida e com toda a simplicidade que somente a infância traz.
-Sabe o que foi? Pergunta, já respondendo Ritinha.
Sabe a cachorrinha da vizinha, a Lulu?
-Sim, responde Oracina, assustada.
-Pois é, o Plutão machucou a patinha da frente.
-E daí?
-Daí a Lulu, ficou com peninha dele e deu uma carona, amarrada nele igual aquele recoque que puxou o carro do tio José outro dia. (reboque queria dizer a ingênua criança)
- Tá bom e o quê que você fez, pestinha?
Perguntou Oracina já irritada com a caçula.
-Daí eu fiz uma coisa errada, e é por isso que ele ficou com raiva de mim...
-Fala, peste, o que você fez?
-Ah, Cicina, eu cortei a cordinha...

Gilberto e o Peixe estranho...

Pescaria boa, somente nos meses que têm a letra R: de setembro a abril, quando está mais quente e os peixes ficam mais espertos.
Pescar no inverno é quase certeza de bornal vazio. Menos para Gilberto, o nosso grande pescador!
A isca não importa, muito menos a vara, ele pesca até sem anzol!
E isso causou espanto em todos os pescadores de Santa Martha, acostumados à pesca menos exitosa, felizes com os poucos bagres, mariazinhas, cambevas e outros peixes noturnos...
Acontece que, naquele dia de inverno; inverno santamartense que, para quem não conhece é de um frio cortante e inesquecível, ainda mais se embalado com a garoazinha chamada de “nublina” pelo povo da região, Gilberto se animou a ir pescar.
Dona Rita quis impedir, mas sabia que seria em vão, Gilberto era de uma teimosia asinina!
Preparativos feitos, Betinho partiu rumo ao delicioso hábito da pesca.
Noite fria e garoenta, os ossos tiritando e as mãos congeladas...
A pescaria ia, como sempre, num marasmo gostoso e, se não fossem os pernilongos e muriçocas, dava até vontade de dormir...
Quando, de repente, a vara enverga com força. Gilberto, numa luta hercúlea, depois de três horas, conseguiu finalmente retirar o peixe do rio.
Peixe estranho, meio cor de rosa, com um nariz diferente, sem escamas.
Beto, desconhecendo o peixe, mas satisfeito com a pescaria, resolveu se dar por satisfeito e mal esperava para mostrar a todos aquela espécie diferente que tinha conseguido pescar.
Ao chegar em casa, lá pelas três horas da manhã, foi se deitar e sem incomodar ninguém, temendo as broncas de Ritinha e de Seu João Polino, foi para a cama, sem ao menos se lavar; trocando de roupa silenciosamente e às escuras.
O peixe fora deixado, estrategicamente, próximo à sua cama, numa bacia bem grande, onde mal cabia o graúdo.
O sol ia nascendo quando Beto ouviu um barulho estranho.
Como se tivesse caído uma panela ou coisa assim.
Espantado, procura pelo peixe e nada.
Procura daqui, procura dali, cadê o peixe, meu Deus.
Algum moleque safado tinha entrado pela janela e roubado o seu peixe estranho. Agora não poderia mais contar para ninguém sobre o que tinha acontecido, sob pena de ser chamado de mentiroso.
E, mentiroso, era coisa que não admitiria, tudo menos mentiroso.
É claro que podia, como todo bom pescador, podia até exagerar um pouco; mas mentira era coisa proibida no seu vocabulário.
De repente ouviu um barulho que parecia vir de cima, com um rabo de olho deu uma guinada e, para sua surpresa, viu o inacreditável.
Um jovem nu, inteiramente nu, em cima do seu guarda roupa.
Ah, Beto ficou furioso, como é que podia ter entrado um sujeito e ainda mais pelado, no seu quarto.
Como iria se explicar ao povo de Santa Martha? Logo ele, tão machista e metido a paquerador!
Um homem bonito, deveras muito bonito, peladinho de tudo, nuinho da silva...
Beto, reparando com mais cuidado, percebeu que na boca do rapaz havia um corte, um profundo corte, que perfurava sua bochecha...
É, por pouco não tivemos o primeiro filho do boto de Santa Martha...

Gilberto, O Pescador

Gilberto era o maior pescador de Santa Martha, e disso ninguém pode duvidar.
Um dia, a sua sobrinha Alessandra veio passear, em visita aos seus avós, Seu João Polino e dona Rita . Betinho convidou-a para irem pescar no rio Norte, que atravessava a pequena e convidativa Ibitirama.
Alessandra e seu pai, Joãozinho ficaram muito animados com o convite e fizeram todos os preparativos necessários.
No dia marcado para a aventura, fizeram uma massa especial que consistia num misto de ração, com farinha de trigo e queijo. Prepararam duas varas com molinete e partiram para a margem do rio, junto com o nosso herói.
Surpreendentemente, Gilberto não levava nada a não ser um desses caniços de bambuí muito usados pelos sertanejos para a pesca de lambaris e de acarás.
No meio do caminho, o rio fazia uma curva muito fechada e Joãozinho, que passara sua infância naquelas redondezas não reconheceu tal curva.
Lembrava-se que havia um pé de ingazeiro aonde ia, muitas vezes, se deliciar com os ingás que ajudavam passar o tempo.
Pois bem , o pé de ingá tinha desaparecido e no seu lugar, o rio descrevia aquela estranha curva.
Como o poeta dizia que queria ter seu coração enterrado na curva do rio, João logo associou a curva a uma sensação agradável e comunicou a Gilberto como havia mudado a geografia daquele braço do Itapemirim.
Gilberto, sem pestanejar, foi desfiando seu rosário de histórias sobre pescaria.
A curva daquele rio tinha uma explicação, no mínimo inusitada.
Num dia de dezembro, o calor estava escaldante e a pescaria monótona não trazia nada além de lambaris e de pequenas acarás sem graça.
Mas, a vara de bambuí, num instante se envergou com toda a força.
Gilberto, agarrou-se com toda a força possível e impossível àquela vara e tentou, embalde, retirar o peixe.
Vendo que a situação era um tanto quanto complicada e aproveitando-se de que um cavaleiro, por coincidência, João Polino, passava por ali, teve uma idéia brilhante.
Pedindo a Seu João que apeasse, Gilberto amarrou a vara nas patas traseiras do cavalo e solicitou que esse fosse estimulado a tracionar
Tentando retirar o peixe.
Vara amarrada no cavalo, cavalo tentando sair, poeira levantando e nada de se retirar o peixe.
Nesse momento, passa um lavrador muito amigo de Gilberto e de João Polino e, ao ver a situação, teve a idéia de amarrar uma corda no seu fusca e tentar puxar.
Fusca amarrado no cavalo, cavalo amarrado na vara, fumaça nos pneus e nada do peixe sair.
Beto estava ficando desesperado mas, ao se lembrar que ali morava o seu Benedito e que esse tinha um jipe, solicitou ao mesmo que ajudasse.
Jipe amarrado no fusca, fusca amarrado ao cavalo, cavalo preso na vara e nada!
O peixe deveria pesar, por baixo, mais de quinhentos quilos, para poder agüentar tal tranco e nem se mexer!
A situação já estava passando dos limites quando o Seu Benedito recordou-se de que tinha um caminhão estacionado na venda do Paulão, vizinho de propriedade e fornecedor de todas as horas.
Paulão, ao ver a situação não titubeou; com uma corrente de ferro amarrou o caminhão no jipe, jipe preso no fusca, fusca preso no cavalo, cavalo na vara e o peixe teimosamente nem se movia...
A turma já ia desistindo quando surgiu a presença de Mário.
Funcionário da prefeitura, estava patrolando as estradas de terra do município, e ao ver tal fato inusitado, cedeu a patrol para a tentativa de se retirar o peixe.
Patrol atada no caminhão, caminhão preso no fusca, fusca preso no cavalo, cavalo na vara e, mesmo assim, nem se movia...
Alessandra já irritada com a história resolveu dar um basta e perguntou definitiva:
-E aí Gilberto, o quê que aconteceu afinal?
Gilberto calmamente, respondeu: -Ué! Você não queria saber porque que apareceu essa curva?
Entortamos o rio mas não tiramos o peixe....

Trovas

Minha perna machucada,
Arranhou o meu amor;
Amor de carta marcada
Traz essa marca da dor...

Sangra peito de mansinho,
Cupido foi quem flechou;
Passarinho faz seu ninho,
Meu ninho se aninhou...

Boca do sapo colei,
Esparadrapo da avó.
Meu amor eu amarrei,
Me deu pena, me deu dó...

Vaso trincado não cola,
E se cola não remenda.
Amor por mais que m’acenda,
Ela nunca me deu bola...

Pitando meu cachimbão,
Na choça e no meu roçado;
Um homem apaixonado,
Maltrata seu coração!

São remendos da saudade,
As coisas que quero crer;
Procurei felicidade,
O que encontrei? Só você!

No fumo trago fumaça,
Na fumaça meu cigarro;
Na boca trago a cachaça,
Da vida, tirando sarro...

Na noite servi um copo,
No dia fiz a batida;
O que vier eu já topo,
Amor e paz nessa vida...

Rosa brota da roseira,
Tomateiro dá tomate;
Manga vem da mangueira,
Meu amor não me maltrate...

Cheiro verde e cebolinha,
São temperos sim senhor;
Amor e Mariazinha,
Juntando já nasce flor...

Peixe traz uma minhoca,
Nessa boca quem pescou.
Amor batido e paçoca,
Tanto bate que quebrou...

Resta minha magricela,
Nela ponho minha fé;
É melhor andar com ela,
Do que ir embora, a pé...

Minha cama foi montada,
Meu colchão feito de palha.
Quando vem a madrugada,
Só saudades m’atrapalha...

Saca-rolha o porco tem,
E também tem a tomada.
Meu amor, vou sem ninguém,
Como dói a madrugada...

Dois bicudos não se beijam,
Mas se mordem sim senhor;
Das mordidas não se queixam,
Inda mais se for d’amor...

Bate bumbo na bandinha,
Na bandinha bate manso.
Vem amor, vem de bandinha;
Sua banda assim, alcanço...

Bebi água cristalina,
Na fonte desse riacho;
Amor por essa menina,
Como dói esse diacho...

Vaso ruim tá quebrado,
Procurei então colar;
Meu amor desesperado,
Não pode mais esperar...

Meu livro deixei aberto,
Na página que procuro;
Quando meu amor tá perto,
Fico cego, tudo escuro...

Não mais serei nem peça nem pedaço

Não mais serei nem peça nem pedaço,
Não quero ter completa decisão,
Sobre se fazer, quero a indecisão,
Basta das tais saudades, meu abraço...

Quero terminar tanto quanto passo,
Em meio a quedas, sofro sim e chão,
Menina nunca quero teu perdão,
A vida sigo, preso no teu laço...

Eu quero revelia, meu revés,
Não quero ver a vida no viés,
Pedaços dos abraços traz o tchau.

Essa balburdia cheira carnaval,
Minha senzala feita no varal,
As marcas das correntes nos meus pés...

No verde desses olhos, trazes mata

No verde desses olhos, trazes mata,
Na lembrança feliz da juventude,
Quisera ter a mesma, magnitude,
Do amor que vai correndo qual cascata...

Verde cor d’esperança que maltrata,
Que traz de novo o brilho e atitude,
Verde que me dá vida e mais saúde
Os teus olhos tão verdes, vida e nata...

Não precisava amar, quase mais nada,
A não ser tua lua esverdeada,
No teu canto feliz, os verdes campos...

Brilhando nessa noite, pirilampos,
Não quero me prender nego meus grampos,
Só quero sentir verde na morada...

Caixeiro Viajante e a Onça

Naquele dia de dezembro, João Polino, maior expoente da JR distribuidoras de alimentos, sediada em Cachoeiro do Itapemirim, ia ter que viajar para São José da Pedra Menina, no município de Espera Feliz, nas Minas Gerais.
A estrada era de terra e, como não havia condução para lá, João teria que ir a cavalo.
Nada demais para o grande cavaleiro, acostumado com a montaria, desde menino. Rei dos rodeios que começavam a ser disputados naquela região.
Domador de cavalo bravo, João tinha, por costume, levar a sua garrucha pelas estradas pois, principalmente nas madrugadas era comum se deparar com matilhas de cães do mato, onças pintadas e outras feras que habitavam aquelas matas do Caparaó.
Durante o caminho, solitário e ansioso, João contava com as estrelas como guia e em noite de lua clara, a lua dava a claridade necessária para que a travessia fosse feita sem maiores problemas.
Em São José da Pedra Menina, João era muito conhecido, tendo pousada na hora que quisesse, mas a saudade de sua amada não permitia que o mesmo pernoitasse por lá, ainda mais que a carne é fraca e os olhos azuis conquistadores, não daria outra...
A sorte de João era que, além da garrucha, levava consigo um canivete, desses que os caboclos usam para cortar fumo e unha...
Naquele fatídico dia, a noite estava enluarada e João, para distrair, começou a imitar todos os passarinhos que conhecia. De canário a curió, passando pela graúna, João era um dos maiores imitadores de passarinho da região.
O canto do inhambu era extremamente familiar para João. Para João e para a pintada.
A pintada não, as pintadas...
Ao imitar o inhambu, João nem reparava que estava preparando a própria cova.
Pois bem, em meio ao canto, recebeu, surpreso uma resposta...
Atrás do inhambu, ia João, e o inhambu atrás de João. Inhambu não, onças e das grandes.
Ao avistar as pintadas e perceber que estava com a garrucha, ficou num mato sem cachorro.
Se desse um tiro, poderia matar uma onça, mas a outra teria tempo e disposição para engoli-lo, e vivo...
Parou, pensou e sem pestanejar agiu.
Mirou não na onça, mas no canivete.
Canivete à frente, a bala disparada, metade da bala em cada onça.
Uma correria de dar pena; os dois monstros miando e correndo, feridos de morte.
Acontece que, pensando que ninguém iria dar crédito a sua história, João não perdeu tempo: agarrou a onça pelo rabo, logo a maior delas.
A bichinha saiu correndo mas a pele, descolando-se toda, ficou nas mãos de João.
Ao chegar em Santa Martha, o maior sucesso.
Todas as moças querendo saber do ocorrido, todo mundo em polvorosa.
A história correu mundo, mas só não convenceu a José Reis que, homem sabido, tinha visto a mesma textura e os mesmos desenhos do “couro” de onça, numa confecção de tecidos que visitara em Vitória, no mês anterior...

“Em Homenagem a Chico Anísio”

Haikai Primavera

Primavera e flores
Fecundidade traz vida
Vida, mais amores...

Um caixeiro viajante

João Polino, quando rapaz, era um dos maiores conquistadores de Santa Martha, um verdadeiro cavalheiro, dono dos olhos mais azuis do Caparaó.
O seu atual cunhado, José Reis, irmão de sua amada Rita, tinha um armarinho de secos e molhados naquela terra adorada e fria.
João, dono dos seus dezessete anos, resolveu trabalhar com José, de olho na Rita, menina ainda, mas dona de uma mansidão e serenidade realmente cativantes.
Logo assim que começou a trabalhar, João recebeu um convite irrecusável; uma das maiores distribuidoras de alimentos da região, com sede em Cachoeiro de Itapemirim, resolveu chamá-lo para fazer um teste como caixeiro viajante.
João não pestanejou; a possibilidade de um ganho maior e uma vida de aventuras que se desenhava pela frente eram por demais tentadoras para o nosso herói.
O gostoso da profissão era isso mesmo, a variedade de lugares e de pessoas com que conviveria. Todas essas coisas cativaram João, que começou uma história de aventuras sem par...
Numa dessas viagens, João iria para Guaçui, o que não teria problemas já que a cidade tinha uma infra estrutura até que razoável.
O Hotel Real, no centro da cidade tinha vários leitos à disposição dos viajantes de sempre e dos turistas ocasionais.
Acontece que, por aqueles dias, haveria uma exposição de gado na cidade e a hotel estava totalmente completo.
Nada demais para João, acostumado às intempéries da estrada.
Acontece que, quando se preparava para ir para a estrada, viajando para São Tiago e dali para São Lourenço quando encontraria, facilmente carona ou condução para sua amada Santa Martha, a tempo de ver sua Rita, a chuva despencou.
Chuva não, minto; tempestade, e das brabas.
Chovia como dizem alguns , a cântaros, e até canivete começou a cair sobre as costas dos desavisados.
Procura daqui, procura dali, eis que surge a última esperança: uma pensão lá pros lados da Vila Alta, usada por casais em busca de um local sem testemunhas para a noite de amor que se aproximava.
Mesmo lá, não havia leitos. Mas, com pena de João Polino, Toniquinho, o gerente da pensão deu uma sugestão:
Havia um senhor de avançada idade que, sem parentes e sem amigos, morava na pensão, dono de um quarto vitalício, pago regiamente com seus proventos de ex-militar.
A noite avançava e a chuva nem sombra de amainar...
João aceitou o convite de dividir a cama com aquele senhor, inofensivo e asmático.
Noite alta, madrugada adentro, eis que, de repente, o senhor dá um grito e começa a pedir ajuda de João:
-Meu filho, me arranje uma mulher, pelo amor de Deus, te dou tudo o que tenho, mas me arranja uma mulher depressa...
Ao que João impiedoso, respondeu: -De forma alguma meu senhor, nem por todo dinheiro desse mundo!
-Por que, meu filho, me diga por quê?
-Em primeiro lugar, são duas horas da manhã e eu não vou sair de madrugada procurando mulher, tenha a santa paciência!
-Em segundo lugar, está chovendo muito e eu não trouxe nem guarda-chuvas e não quero ficar doente, muito menos pegar uma pneumonia e em terceiro lugar: meu senhor, o que o senhor está segurando não é o seu não, É O MEU!

Se quando me trouxeste essa roseira

Se quando me trouxeste essa roseira,
Houvesse me trazido uma só rosa,
Terias me deixado todo prosa,
Mas preferi assim, te ter inteira...

Nas horas que passei, hora certeira,
Eu percebi o quanto que és dengosa,
Mas mesmo assim, te tenho, és amorosa,
Vivendo por viver, vida besteira...

Sabendo que não posso te encontrar
Nas rosas que plantei só por plantar,
Procuro pela rosa em meu jardim,

Te quero tão somente para mim,
Te tendo p´ra viver tão bela assim,
Na roseira que quero jardinar...

Cordel - A minha sina - capítulo 3 - Virgulino

Minha vida vai depressa,
Nas matas desse grotão,
Onde bate coração,
Vida fazendo remessa,
Vou passando sem ter pressa,
Buscando um novo cantar,
Procurando por lugar
Onde possa ter certeza,
Que não tenha mais tristeza,
Nem do que me admirar...

Depois dessa confusão
Com Jacinta e sua laia,
Não quis saber de gandaia,
Muito menos procissão,
Procurando um novo chão,
Bicho de saia, tô fora,
Pelo menos por agora,
Nem que peça a condessa,
Até mula sem cabeça.
Encontrei por mundo afora...

Cheguei nas terras do Juca,
Pelos matos da Terena,
Naquela serra pequena,
Alma da gente cutuca,
Vivendo dessa arapuca,
Não posso dela fugir,
Vou morrendo sem sentir,
Cheiro de terra molhada,
Pelo sangue, temperada,
Brotando sem se pedir...

Pois te conto seu doutor,
Não podendo ficar quieto,
Peguei caminho mais reto,
Todo cabra de valor,
Debaixo do sangrador,
De sujeito mais safado,
Abriu desde seu costado,
Descendo o pau mete ripa,
Revirando então as “tripa”,
Deixando bem perfurado...

Empreitada como aquela,
Nunca mais eu vou saber,
Era coisa pra querer,
Sem pensar direito nela,
Por conta duma costela,
Que um sujeito me quebrou,
Mas deu o fora, vazou,
Nem notícias nem recado,
Correu pelo descampado,
Nem rastro dele ficou...

Esse maldito chulé
Dera de contar vantagem,
Isso é muita sacanagem,
Não vou deixar isso a pé,
Nem que fique tereré,
Não vou fazer de rogado,
Eu pego esse desgraçado.
Eu vou tirar isso a limpo,
Soube que está num garimpo,
Vou matar esse viado...

Peguei a minha mochila,
Despenquei, fui para lá,
Tem gente falou não vá,
Mas tem defunto na fila,
Fui correndo pr’essa vila,
Eu nem pensei duas vezes,
Quero a cabeça do sapo,
Arranco logo no papo,
Que é assim que matam reses...

No garimpo lá no Norte,
Procurei por toda parte,
Não pedindo nem aparte,
Estava com gosto de morte,
Apostei na minha sorte,
Pro garimpo fui correndo,
Mal o sol ia nascendo,
Eu nem esperei brotar,
Querendo depressa chegar,
Vingança assim, vou vivendo...
Chegando no mafuá,
Encontrei cabra valente,
Ouro tinha até no dente,
Tanta gente tinha lá
De todo jeito que dá;
Tinha velho desdentado,
Tinha cabra magoado,
Por causa duma mulher,
Todo jeito que quiser,
Muito pudim de cachaça,
Tem sujeito boa praça,
A desgraça que vier...

Perguntei pra todo mundo,
Onde estava o desafeto,
Que por certo, tava perto,
Ele chamava Raimundo,
Era um cabra vagabundo,
Tinha cicatriz na cara,
Bigode tinha na apara,
Uma cara de paçoca,
Uma cor de tapioca,
Ia sangrar numa vara...

Me pediram com cuidado,
Muita vagareza e tino,
Pois ele tinha o destino,
E o corpo tava fechado,
Que por mais que fosse errado,
Com ele ninguém bulia,
Era o rei da valentia,
Sujeito muito covarde,
Que antes que a noite tarde,
Matava mesmo de dia...

Camarada sem tempero
Senhor dessas taperas,
Maior fera entre essas feras,
Temido por companheiro
Rei dum reinado inteiro,
O maior dos assassinos,
Herói de todos meninos,
O superhomem de lá
Nó em jararaca dá,
Dobrava todos os sinos...

Sem ter medo de valente,
Cara feia e assombração,
Matador desse sertão,
Pensei dum modo decente
De levar esse vivente
Pra casa de Satanás,
Dei dois passos para trás,
Chamei esse tal Raimundo,
Que era fedorento e imundo,
Que só morte satisfaz...

Na hora do desafio,
Ele me reconheceu,
E sabendo quem sou eu,
Chamou espada no fio,
Convidando mais um trio,
Prá “mode” poder brigar,
Gostei do desafiar,
Quatro sujeito é demais,
Mesmo assim eu quero mais,
Nunca vou me acorvadar...

Porém com o sangue quente,
A gente não pensa, demora.
Eu nem pensei, nessa hora,
Que tinha lá muita gente,
Que era melhor, de repente
Esconder e tocaiar,
Podia escolher lugar
Pra pegar esse safado,
Mas deixei tudo de lado,
E com ele fui lutar...

Depois de já ter furado,
Um dos cabras de Raimundo
Uma faca entrou bem fundo ,
Me machucou desse lado,
Agora eu já tô ferrado,
Chegou a hora da morte,
Acabou a minha sorte,
Minha sina terminou,
Pensei que tudo acabou;
Mas meu Deus tem muito porte...

Na hora que eu precisava,
De uma ajuda de meu Deus,
Surgiu um cabra dos meus,
Que eu nunca que imaginava
Que esse camarada tava,
Endiabrado, esse dia,
E no mei da ventania,
Sacou de sua peixeira,
Na porrada fez fileira,
Fez à sua serventia...

Esse sujeito do Norte,
Parecia mais menino,
Chamado de Virgulino,
Não temia dor nem morte,
Para culminar a sorte,
O moço meio zarolho
Era cego só dum olho,
Mas enxergava por dois,
Numa conversa depois,
Temperou com muito molho...

Contou que era garimpeiro,
Veio de Serra Talhada,
Corria na vaquejada,
Percorreu sertão inteiro,
E que desde fevereiro,
Nesse garimpo chegara,
Que cedinho já notara,
Naquele tal de Raimundo,
Um sujeito vagabundo,
Que esse dia preparara...

Força de eu ter conhecido,
Pros lado de Pernambuco,
Um cabra bom de trabuco,
E muito do divertido,
Resolvi por mais sentido,
Nessa nossa ladainha,
Perguntei nessa tardinha,
De quem ele era parente,
Fiquei quieto de repente,
Com a resposta que tinha...

Contou-me, pra susto meu,
Que era neto de Zefinha,
Moça dessas bonitinha,
Que no passado viveu,
Que de perto conheceu,
Com muito beijo e abraço,
Moça pegada no laço,
Nas terras desse sertão,
Que teve com Lampião,
O rei de todo cangaço,

Um moleque bem criado,
Um sujeito musculoso,
Cabra muito perigoso,
Campeão de todo o gado,
Esse peão afamado,
O rei de todo sertão,
Era cara e coração
Do pai, sujeito valente,
Compreendi, bem de repente,
Que o neto de Lampião

Era o tal de Virgulino,
Que lutou junto comigo,
Sem temer nenhum perigo,
Sem ter medo do destino
Que com todo desatino,
Ajudou a terminar
Com quem quis me machucar,
Me pegar na covardia,
Mas com toda valentia,
Me ajudou comemorar...

E desde aquele incidente,
Agora não tem jeito não,
Quando vamos no sertão
Ninguém bole com a gente,
Nem na faca ou no repente,
Quem queira corre perigo
Mexeu com ele ou comigo,
Na ponta duma peixeira,
Arrepende a vida inteira,
Depressa vem o castigo...

Nas catedrais dos sonhos, bate o sino

Nas catedrais dos sonhos, bate o sino,
Convocando fiéis para velório,
De quem tempos vividos, foi notório,
Agora já descansa, vai menino...

Teimavas, rebelado contra todos,
Vivendo seus enganos, com coragem;
Lá fora, a brisa sopra doce aragem,
Comemorando, livre; teus engodos...

Quem sonhava liberto, libertou...
Não queria, talvez, tal liberdade;
Mas sonhou com total honestidade,
Até que com leveza, já voou...

Meus olhos não choraram nem marejo,
Esse tempo, aliado da saudade;
Trará enfim, p’ra mim, veracidade,
Saber que conseguiste teu desejo...

Profanando cenários mais sagrados,
Sem confetes, nos flertes sem razão;
Por quantas vezes, disse sim seu não;
Receba em paz, teus olhos tão cansados...

No que fui, sou teu rio, quero mar;
Em todo meu martírio, foste guerra.
Nos meus vales, fugindo dessa serra;
Quem me dera poder só t’alcançar!

Deveria ter asas, passarinho,
Quem sabe assim teus anjos buscaria,
Em tuas mendicâncias pelo dia,
A noite poderia ser teu ninho...

Salmo 6

Meu Pai, não me castigues com furor,
Tenha misericórdia, pois, de mim.
Me cure, já que fraco, sou assim;
Minha alma está sofrendo; Meu Senhor...

Salva-me ,pois, benigno és, caro Pai...
E quem te louvará, sem t’as lembranças,
Molho todo meu leito, choro, avanças...
Meus olhos consumidos, mágoa vai...

Envelheço-me, luto com gentio;
D’iniquidad’ afasta-me, meu Deus.
Pois sei que bem ouvist’ os prantos meus,
Teus ouvidos das súplicas que envio

Sei que estão tão plenos e completos...
Que todos inimigos se envergonhem,
Num momento, contigo, Meu Pai, sonhem,
E que possam trilhar caminhos retos...

A Bichana

Num dia quente de janeiro, João Polino, cansado da mesmice santamartense, resolveu dar um passeio no Rio de Janeiro.
Seu irmão mais velho, há muito morava na cidade maravilhosa e estava cansado de convidar nosso herói para passar umas semanas com ele, desfrutando da praia de Copacabana.
João fez os preparativos para a viagem, arrumou a sua mala, sem esquecer-se das lembranças que levaria para o amado irmão.
Uma cachacinha de lei, um pote de doce de leite, outro de doce de figo, umas goiabas, mangas espada, laranjas,etc.
E, como queria agradar a sua cunhada, amante de animais de estimação, criadora de gatos siameses, angorás; resolveu levar um filhote de onça pintada para ela.
Ao ser informado de que não poderia levar um animal vivo no ônibus, muito menos um filhote de onça, João não pestanejou. Pegou o bichinho e colocou num bornal à parte, tampando a boca da bichana com um pano e amarrou as patinhas do pobre animal, imobilizando-o totalmente.
Assim que entrou no coletivo, deixou as malas no guarda volume, no bagageiro e, carregou o bornal consigo...
Desceram por Ibitirama, passando por Celina e quando já estavam perto de Guaçui, aconteceu o imprevisto. A onça, mercê de tanto stress, resolveu, bem como direi para não chocar as senhoras, evacuar...
As fezes da bichana tinham um odor deveras intenso, empesteando todo o ônibus.
João Polino, fez que não era consigo e, simulando um sono profundo, fechou os olhos e ficou quieto,
Mas, a situação estava ficando insustentável; um passageiro olhando para a cara do outro, desconfiado, como se quisesse reclamar mas sem saber a quem.
Assim que passaram por Guaçui, começou a chover; chuva torrencial.
Daquelas que não permitem janelas abertas, sob o risco de empapuçar quem ousasse abri-las.
Janelas fechadas, o cheiro se intensificando a cada minuto, os olhares desconfiados e João Polino dormindo...
Num certo momento, o motorista não suportando mais tal catinga, disparou, tentando ser educado...
-Quem tiver com a bichana fedendo, por favor, saia do ônibus!
A Dona Zica, esposa do seu Jacinto, coitada, pensando que era com ela que o motorista falava, desceu envergonhada...

Vi teu nome jogado na parede

Vi teu nome jogado na parede,
Como fosse sinal de minha fúria.
Escrevi, pois, embalde essa centúria,
Saber de teu futuro, tenho sede...

Seria bom deitar-me nessa rede,
Pedir licença à Padre, e toda a Cúria;
Poder te desnudar, tanta luxúria...
Mas te quero madura e estás tão verde...

Não quero mais saber desse negócio,
De passar em ti, todo esse meu ócio,
Nem quero saber quando te perdi...

O que no mar achei, me despedi;
Amores que pensei achar em ti,
Só não posso aceitar um novo sócio...

Quanta melancolia a noite traz

Quanta melancolia a noite traz,
A saudade desfruta do meu peito.
Penso mesmo, terei esse direito?
Pois, sem você, serei do que capaz?

Tantas flores no campo, quero mais,
Quero o gosto sincero e tão perfeito,
Deixa a vida seguir desse meu jeito,
Nunca quero deixar isso pr’a trás...

Um gole de conhaque, me traz lua,
A boca dessa noite, os teus lábios.
Queria não conter desejos sábios,

Amores já perdi, mas foram vários.
Minha’alma restará, ficando nua,
Minha alma que, perdida, foi tão sua...

Variando meu lema, busco a paz

Variando meu lema, busco a paz.
Não a paz simplesmente tão cordata,
Aquela que recende numa mata,
Aquela que só brisa mansa traz...

Essa paz que procuro, é bem capaz,
De morrer pesadelo em serenata;
Traz consigo essa fúria de cascata,
É meio Deus arcanjo e Satanás...

Minha paz construída em tuas ancas,
No requebro voraz, vem das carrancas,
Protetoras do Velho São Francisco.

Tem o temperamento mais arisco,
Não temendo sequer o próprio risco,
Traz o vermelho audaz, nas pombas brancas...

Quem sabia dos mares, timoneiro

Quem sabia dos mares, timoneiro,
Se perdeu; tantas foram calmarias,
Sem vento pelas noites, pelos dias,
No mar, silenciado por inteiro...

Não pudera vencer o verdadeiro
Amor que nunca traga ventanias,
Que nunca queimará loucas orgias.
Nas ante-salas, morno e pasmaceiro...

Amor é na verdade, tempestade;
Vagando sem ter medo, nem que tarde,
Consumir-se feroz, nessas procelas.

E não teme castigos e nem celas,
Sabe dores cruéis até singelas,
Amor sem ter tempestas, falsidade...

Minha lágrima, estima e sentimento


Minha lágrima, estima e sentimento; na palidez do não, nem talvez, digo sempre,praieiro coração...
Nas pedras do cais, o caos, o vem e não vais, o jamais, o quem dera. Vida, esfera, roda de bar em bar, girando gitana em busca da cigarra que transforme toda forma em matriz, peço bis, sou feliz mas não queria...
Meio dia, melodia, meu dia é diária avaria. Quebro o tempo, contratempo, conta-gotas, vão envoltas minhas voltas pelo mundo...
Contra-sensos, são imensos, sou imerso, vou diverso de verso em verso...
Mas quero o acero, quero a aragem, a coragem não se fia. Fiador da dor que não pré-curo nem procuro, sobre o muro que escurece e divide.
Dívidas e débitos, bytes e bikes, sou flâmula. Inflama a alma, a lama e a trama, trâmites e trinos, seus hinos e meus tinos, desatino...

No quebrar da onda, mareio e timoneiro, sou Marte, vou Plutão...
Nunca sim, quem sinaliza a brisa entoa, minha canoa não voa, afunda...
Minha funda melancolia, colites e cólicas, eólicas sensações...
Sou vago, e vadio, meu cio é todo seu.
Quero bocas e delírios, teus cílios e teus seios. Teu mar, sou pororoca.
A toca onde entocas teus desejos, meu anseio. Sou vermelho, formalizo, te aliso e não consigo. Mas, prossigo, do teu pêssego, fiz perigo e âmago, meu gosto nesse agosto é teu rosto contra o meu...

Salmo 5

Dê, às minhas palavras, Meu Senhor,
Ouvidos; atendendo à meditação...
Atendei o que clama o coração,
Eu orarei, portanto, ouça meu clamor!

A minha voz,Senhor, pela manhã,
Ouvirás, n’oração que te farei,
És meu Pai, desse Reino, és meu Rei;
Por hoje e para sempre, n’amanhã...

A iniqüidade nunca satisfaz,
Mal não habitará, jamais em Ti;
Odeias a maldade, pois não vi,
Nem sequer sombra dela, em quem t’apraz...

Mentirosos destróis, os fraudulentos;
Aborrecerás, tenho isto por certo;
Mas, Teu Lar estará sim, sempr’ aberto,
Tua benignidade, solta aos ventos...

Guia-me na justiça, meu caminho
Endireita, diante de mim, Pai,
Inimigos, maldades, é o que sai,
Suas sujas entranhas, mar daninho...

Nessas pobres gargantas, um sepulcro;
Que caiam por seus próprios, maus conselhos;
Nas suas transgressões, cruéis espelhos,
Lance-os fora, jogue-os no fulcro...

Mas, que s’alegrem todos que confiam
Em Ti, pois a defesa lá terão,
Os que teu nom’amam, no Pai serão
Abençoados, como eles queriam...

Aos justos, todas bênçãos se darão,
Terás grande defesa, neste escudo;
Protegendo assim, e contra tudo,
Somente por tocar o coração...

Salmo 4

Durmo em paz, eu me deito em segurança,
Pois tenho o meu Senhor, com alegria;
O vinho e trigo, tudo dobraria ,
N’amor do Pai, que é nossa temperança...

Mas, porque converteis a minha glória,
Na infâmia mais cruel; mentiras buscas,
Amando a vaidade que t’ofuscas;
Até quando; responda-me, essa história?

Pois, na angústia me deste tal largueza,
Tenha misericórdia, então, de mim;
Ouça minha oração, fiel, enfim;
Piedosos, separas, com clareza...

Atentai, não pequeis;Ah! Isso não,
Falai sobre t’a cama e calai;
O Bem nos mostrará somente o Pai.
Pois povoas, d’alegria o coração...

Sábado, Agosto 26, 2006

Cordel - A minha sina - capítulo 2 - Jacinta

Marina, minha menina,
Safada como ela só;
Na minha vida deu nó.
Depois da mão assassina,
Continuei minha sina;
Em busca do meu caminho,
Mas dei tempo, fiz um ninho;
Com Marina fui morar,
Tanto prazer para dar,
Por que vou ficar sozinho?

O doutor nem me pagou,
Nem precisava pagar;
Marina foi no lugar,
Foi tudo que me restou;
E, de novo, aqui estou...
Na cama dessa pequena,
Que faz bico e que faz cena;
Pronta para me engrupir,
Bastava só me pedir,
Rezava até em novena...

Mas, num dia de tristeza,
Por causa de romaria,
Cismou de ir com Maria;
Filha da dona Tereza,
Que fez voto de pobreza;
Duma forma diferente,
Dando pra todo vivente,
O que Deus lhe deu com fé,
Ia a cavalo ,ia a pé;
Toda noite um diferente...

Juntando pólvora e fogo,
O troço todo fedeu;
Marina, então se esqueceu,
E mesmo com todo rogo,
Fugiu com um tal Diogo;
Sem deixar rastro e sinal,
Juntei então no bornal,
E pra outras cercanias,
Em busca das valentias,
Recomecei meu jornal...

Nessas estradas mineiras,
Sem ter medo mais nada;
Na serra ou noutra baixada,
Fiz das rimas verdadeiras,
As ramas foram esteiras,
Onde dormi sem ter medo.
Desse meu novo degredo,
Exilado sem ter casa,
Meu peito ardendo na brasa,
Na solidão, meu segredo...

No bornal levo cachaça,
Três pistolas carregadas,
Luares e madrugadas,
Que é coisa que dá mais graça,
Cigarro prá ter fumaça;
Um monte de valentia,
Um novo romper do dia,
Quatro mortes nas “costa”
Três foram de pau de bosta,
Que nem pra bosta servia...

Num canto desse cerrado,
Onde vi onça pintada,
Pelas ribeiras, jogada,
Tudo me foi preparado
Encoivarei um roçado,
Das coisas que sei plantar,
Quiseram me contratar,
Pra fazer mais três “defunto”,
Que, pra terra de pé junto,
Era fácil de levar...

O serviço foi moleza,
Eles morreram no susto,
Tavam atrás dum arbusto,
Se borraram na certeza,
Nem me causaram grandeza.
Servicinho mais vulgar,
Mas deu pra comemorar,
A filha dum tal meeiro,
Nunca vi, no mundo inteiro,
Uma beleza sem par...

Jacinta, a moça chamava,
Tinha um rosto mais perfeito,
Tudo que tinha direito,
A moça tinha e sobrava,
Mas eu nunca imaginava
O que tinha diferente,
Pois se toda aquela gente,
Ninguém me contava nada,
Por que estava, ali, jogada,
Uma moça, assim, ardente...

Sem querer saber por que,
Não me importava a peleja,
Pois quando um homem deseja,
Nada pode convencer,
Não há do que se temer,
Nem há o que perguntar,
É só correr e pegar,
Pois, na vida o que é do home,
Nenhum bicho vai e come,
Nem preciso comentar...

Pois bem, essa tal Jacinta,
Tinha a beleza da flor,
Nem conhecera o amor,
Não procurou fazer finta,
Fui pintando, tanta tinta,
Sem licença pra pedir,
Chegando, fui conferir,
A moça bem de pertinho,
No seu colo fiz um ninho,
O seu cheiro quis sentir...

A moça ficou só no beijo
Não aceitou meu carinho,
Que, mesmo indo de mansinho,
Acendendo seu desejo,
Me deixou só no cortejo,
Fechando as pernas pra mim,
Pensei logo ser assim,
O jeito dessa donzela,
Que depois, numa esparrela,
Ia tintim por tintim...

Depois de tanto alvoroço,
Sem dar ouvido a ninguém,
Que quando a gente quer bem,
Angu não tem nem caroço,
A gente mergulha no poço,
Sem saber profundidade,
Nem pergunta da maldade,
Nem quer saber de mais nada,
A moça, perna fechada,
Parecia santidade...

Mas, depois de três semanas,
De tanto rala e não abre,
Mostrei a ponta do sabre,
Os olhinhos mais sacanas,
Que engana mas não me enganas;
Jacinta não resistiu,
De beijos, então cobriu,
Fez que teve uma vertigem,
Surpresa: não era virgem,
Onde entra um entra mil...

Quis saber dessa safada,
Por que foi que me fechou
Porteira por onde entrou,
Um boi, talvez a boiada,
Ela então, desesperada,
Me disse bem deslambida,
Que nunca na sua vida,
Ela poderia ter,
Um outro amor pra viver,
Sua sorte era perdida...

Me contou: quando menina,
Com doze anos de fato,
Deitada nesse regato,
Que a lua mais ilumina,
Nessa água tão cristalina,
Foi, um dia, se banhar,
Mas não podia esperar,
Que toda nua, e bonita,
O coração que s’agita
Nunca iria imaginar...

Na margem daquele rio,
Um moço que lá chegava,
Belo cavalo montava,
Um príncipe em pleno cio,
Enchente em tempo de estio,
Não conseguiu resistir,
A boca então quis abrir,
Num solavanco com força
Ali, acabou-se a moça,
Se deixando possuir...

Acontece, não sabia,
Que esse príncipe fajuto,
Era o safado dum bruto,
Que não tinha serventia,
A não ser na sacristia,
Que tristeza dessa sina,
Quando tirou a batina,
O padre por pilantragem,
Fez tremenda sacanagem
Com essa pobre menina...

Saiu correndo depressa
Mal completou o contado;
Eu fiquei descompassado,
Com toda aquela conversa,
A quem quer que isso interessa,
Vou contar bem devagar,
Nessa noite de luar,
Vendo de novo essa cena,
Ouvi de longe a pequena,
Num lamento, relinchar!

Sai correndo ligeiro,
Deixei tudo de empreitada,
E, naquela madrugada,
Naquele triste janeiro,
Perto daquele ribeiro,
Antes que a terra me engula,
Só falar, coração pula,
Te juro e falo verdade,
É pura realidade:
Eu tinha comido a mula!

Quadras em decassílabo - Teu retrato

Quando enfim encontrei o teu retrato,
Descorado e jogado na gaveta;
Assinado seu nome, com caneta,
Percebi com saudade, fui ingrato...

Tinhas um olhar triste e tão distante,
Como quem procurasse amor, prazer;
Ou quem sabe, somente, reviver,
Tantos sonhos perdidos, e bem antes...

Não podia sonhar d’outra maneira,
Quem a vida feriu e maltratou;
Tua fotografia me mostrou,
Tanto amor que viveu, a vida inteira...

Me recordo das noites que passamos,
Nossas camas, sentidos e visões;
Em um só, transformando os corações.
Hoje eu bem sei o quanto, nos amamos..

Em teu corpo desejos eram vias,
Tuas mãos delicadas mil delícias,
No sofá, nossa cama, das carícias
Que trocamos, fantásticas orgias...

Teu colo, âmbar , beleza sem igual.
Nos desfiles nas nossas loucas noites,
Nossas línguas desciam, qual açoites
Que traziam eterno carnaval...

Quanto tempo passado, vou sozinho,
Minha cama jamais teve outro alguém;
Procurei sem saber, um novo bem,
Todo mundo passando, eu passarinho...

Na procura silente, quero crer,
Que tal mel, tua boca, só me traz.
Perseguido e tentando ser capaz,
De encontrar outr’amor para viver...

Encontrar teu retrato foi doído
Desespero tomou tudo d’assalto;
Como pude tentar, sou tão incauto
Reviver esse tempo já vivido...

Nunca mais reviver a tua foto,
Nem revirar gavetas, nem passado.
Me perdoe, se tanto andei errado,
Minha vida,um retrato tão remoto...

Triste Sina

Tua sina, querido companheiro,
Com certeza, jamais foi invejada.
Começou, desde início, malfadada...
Teus irmãos dominaram mund’inteiro.

Te restando as profundas; foste herdeiro
Do que nunca, ninguém, quis como estrada...
Dos mortos, o teu reino era entrada,
Da grande Proserpina, amor primeiro.

O teu destino triste, desgraçado,
Achavas que seria teu legado.
De Júpiter, Netuno, foste irmão.

Dos mortos, teu reinado, e possessão.
Isso não bastaria a ti, Plutão;
Depois de tanta glória, rebaixado...

Telefone tocando, novamente

Telefone tocando, novamente;
Preciso dormir, quero e necessito.
Mas como conseguir com esse grito
Infernal que transtorna minha mente...

Madrugada transcorre normalmente;
Não fora tão somente esse maldito,
Que com seu infernal e cruel rito,
Repetindo a chamada, vil demente;

Não deixa descansar quem trabalhou,
Quem, durante, esse dia, labutou;
Para o sustento e glória da nação!

É, mas não tem mais jeito: a solução
É receber maldita ligação...
Alô! Quem é? Responda! Se enganou...

Sentimento mordaz que me metralha

Sentimento mordaz que me metralha,
Não me deixa, sequer, nem respirar;
Na vadia tortura, procurar,
Por alguém que, feliz, tanto atrapalha...

Teu sorriso transforma-se em mortalha,
Machucando feroz, quem quis um par;
Vagabundo serei, não vou parar,
Me contento em fugir dessa navalha...

Sentimento safado,vive tonto;
Aumentando, cruel, ponto por ponto,
Vazia sensação de ser abjeto...

Não sou nem a metade, simples feto
Que procura crescer; tolo, incorreto,
E nunca estará, para a vida, pronto...

Almíscar: meus desejos, teu perfume

Almíscar: meus desejos, teu perfume;
Penetrando as narinas, me conquista.
E não há, na verdade, quem resista,
Nem quero e nem concebo mais queixume...

A vida sem teus olhos, não tem lume,
Meu caminho se perde. Não desista:
Grito contido, perco-te de vista.
Mas teu olor suave, qual costume,

Denuncia teus passos, minha amada...
Não perderei jamais a tua estrada,
Nem quero mais sentir outro desejo.

Teu perfume causando, nesse ensejo,
A doçura suave de teu beijo,
Presença do Senhor, glorificada...

Nessa minha oração, peço perdão

Nessa minha oração, peço perdão;
A quem, por amor, sigo meu caminho.
Quem me fez contemplar, e sou daninho,
Andorinha sozinha, no verão...

Quem me trouxe, certezas, por paixão,
Me embriaga, bebendo verde vinho.
Fermentando, devora, vagarinho,
Tudo o que restou. Sem solução...

Vindo da noite, gritam pesadelos,
Como viver melhor, não quero tê-los,
Mas, mal fecho essa porta, a força bruta...

Amor, transfigurado, nem me escuta,
Cansado, vou vivendo essa labuta,
A minha vida envolta em tais novelos...

Quantas vezes, na noite, me desperto


Quantas vezes, na noite, me desperto;
Acordando, procuro por você;
Com certeza, sedento de prazer,
Muitas vezes, sofrendo, estou bem certo...

Mas estás, assim, distante mas tão perto,
Aguardando-me, enfim. Sobreviver
Nessa vida improvável, quero crer
Que te tenho comigo, tão dileto...

Eu não sei mais porque tanto m’agarro
Só nessa perspectiva, tudo varro:
Tristezas, agonias, sofrimento...

Quem me dera poder ter teu alento,
Onde esperança teima novo intento;
Em tua brasa acesa, meu cigarro...

Quando ando sozinho, sem destino

Quando ando sozinho, sem destino,
Procurando saber da liberdade,
Vasculhando por toda essa cidade,
Percebo, pois, o quanto eu sou menino...

Muitas vezes, me julgo qual felino;
Entretanto sou manso, na verdade,
Queria transformar a realidade.
Mas, calado, vivendo, descortino

Tremenda mansidão, que me tortura,
Trazendo tanta angústia, peço cura;
Nada encontro, senão um doce canto.

Quem me dera poder ter tal encanto,
Que se encontra na luta, caos e pranto.
Mas meu Deus, me legou tanta brandura...

Salmo 3

Os meus adversários nesse mundo,
Aumentam toda dia e todo instante;
E tentam impedir, isso é constante,
Amor por Deus, gigante e tão profundo....

O Senhor me sustenta d’alegria,
O Temor vai distante, pois eu creio;
A salvação que escolho, vem por meio
Da clemência que peço e m’alivia...

Salve-me, Meu Pai, peço tua glória;
Feriste os inimigos nos seus queixos.
Desses ímpios, seus dentes, com mil seixos,
Quebraste e não deixaste nem memória...

Salmo 2

Os povos imaginam coisas vãs,
Amotinam-se contra o Criador;
Acreditam poder, sem meu Senhor,
Dominar, sem temor, suas manhãs!

O Meu Pai, conhecendo tais gentios,
Sabedor dos desejos mais secretos;
Me dá forças maiores, pois são retos,
Os caminhos que levam; desafios...

Pobres reis que renegam Nosso Deus,
Seus destinos não trazem temperança;
Os seus povos serão maior herança,
E os fins da terra, todos, serão meus...

Pois meu Rei foi ungido, com amor,
Sobre o Monte Sião com alegria;
E como todo aquele que confia,
No nosso bom Senhor, vivo temor!

Salmo 1

Uma árvore plantada junto ao rio,
Tem flores, frutos, fortes com certeza.
Agora o coração que vai vazio ,
Não traz, em si, nenhuma realeza...

Os ímpios tanto falam e não procuram
Os caminhos e sendas do Senhor,
Não sabem discernir o que é amor.
Depois, sem ter perdão, jamais se curam..

O vento espalha, sempre, a boa nova,
Os ímpios, no juízo, não prosperam.
Os frutos bons, que tanto bem fizeram,
O rumo da justiça; se renova...

Quadras em decassílabo - Meu Amor

Amor, minh’alma triste te procura,
No amanhecer da vida foste fera;
Agora que, saudade já impera,
A noite se aproxima, mata escura...

Num momento feliz, foi tão amigo;
Mas a vida transforma toda gente,
E depois, tão cruel, foi diferente,
A paz, então, jamais vive comigo...

Sentir a baforada dessa boca,
Que acalenta a dor, vero sentimento;
É conseguir suprir meu pensamento,
Dessa ternura audaz, a voz mais rouca...

Amor quimera, mera diversão,
Que maltrata quem sonha liberdade;
Tão faminto, traduz voracidade.
Começa a devorar, sem ter perdão...

Amor, é doce fruta que envenena,
E vicia quem dela for provar;
E bêbado, tropeça no luar,
Agiganta a que fora tão pequena...

Nos lábios, minha amada, meu desejo;
Um resto de ilusão bate na porta.
Contigo, essa tristeza já vai morta,
No cálice fantástico do beijo...

Teus olhos, são promessas d’esperanças,
Num tempo mais feliz da minha vida.
Seus brilhos iluminam a avenida,
Por onde caminhávamos, crianças...

Nos teus cabelos trazes maciez,
Que minha mão jamais vai esquecer;
Neles, vou embrenhar-me e conhecer,
O que fora da glória, essa altivez...

Em teu pescoço; jóias e colares.
Em teu louvor cantar todos os hinos,
Buscando, nos teus olhos cristalinos,
A força que leva aos teus altares...

Beber de teu sorriso tanto mel,
Saber de tuas noites orvalhadas;
Sonhar contigo minhas madrugadas,
Por ti, agradecer a Deus do Céu...

Amada, tão risonhos os meus dias;
Desde o momento mágico que tive,
Felicidade igual onde, sei, vive
Os pássaros que encantam, melodias...

Teus pés de tão macios e pequenos,
São obras d’arte feitas com louvor;
Por quem foi o mais mágico escultor,
Que por inspiração, não fez por menos...

E caminhas? Flutuas pelos ares,
Teus passos são concertos orquestrados;
Meus olhos na procura, extasiados,
Desejam conhecer os teus altares...

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Quadras em decassílabo

Meu amor se escondendo faz doer,
O que jamais senti por essa luz.
Amor só, sem amores, não seduz,
Nem mesmo me dá forças p’ra viver...

Num barco se navego, sou distante;
Na vida sem ciúmes tenho medo.
Quem sabe do meu parto, meu degredo,
É quem me permitiu ser inconstante...

Na mata tem palmeiras, tem Palmares,
No campo tenho flores impossíveis.
Amores são deveras insensíveis,
Procuro por amor, noutros lugares...

Setembro já me trouxe primavera;
As flores que brotaram nessa mata,
Misturam-se no belo da cascata.
Amores de verdade, quem me dera!

Tenho mudanças nessa minha vida;
Que não consigo máximo nem tédio,
A vida transbordou esse remédio,
Amor é uma cantiga despedida...

No beijo de Maria sei Dolores,
Nem quero pressentir tanta mudança;
Quem me dissera lúdica esperança,
Murchou num triste vaso sem ter flores...

Num momento de glória quis Jesus,
Que o perdão fosse enfim, uma verdade,
Por isso meu amor, por caridade.
Perdão te peço, em nome dessa Cruz...

De tantas valentias que menti,
Não peço nem pergunto por que queres,
Se sabe Tiradentes, foi alferes,
Esferas são as feras só por ti...

Guardado por aqueles que não amam

Guardado por aqueles que não amam;
Aqueles cuja vida foi sem ser,
Quem nunca mais cantou não pode ler,
Verdades sem sentir já me reclamam...

Em plena madrugada vozes chamam,
Perguntam-me sem medo, pois, cadê
Aquela que ensinava-me a viver...
Meus pensamentos, cegos, tudo tramam...

Não quero mais saber das tuas flores;
Bem querer transgredido, traz mil cores
No semblante, reflexos semelhantes,

Aos que bem tarde foram tão constantes,
No mais resplandecente dos instantes,
Guardado num cruel vaso de flores...

Tanta dor, sofrimento vai cortando

Tanta dor, sofrimento vai cortando,
A tristeza da vida sem saudade.
Como dói, vai sangrando, que maldade,
Amores e distâncias, me tomando...

Eu quero, num momento, ver cantando,
Quem fora a causa; triste realidade,
E que vai me torturando de verdade...
Amores sem ter vida, me matando...

Não quero ter nem tempo nem horário,
Nem saber se sentirei, por ser contrário,
A mesma solidão que nem disfarço...

Quisera descansar no teu cansaço,
Queria conviver com teu abraço...
Meu canto, solitário, d’um canário...

A Flor do Maracujá

Quanta beleza existe nessa flor,
A natureza, capricho divino,
Num momento de raro desatino;
Para poder brindar o seu amor.

Com pincéis de raríssimo valor,
E com toda pureza de menino;
No momento de glória fez um hino.
Mostrando seu poder, Nosso Senhor.

Numa atitude bela qu’inda está
Gravada na lembrança que me dá
A medida mais certa da beleza;

No exato instante, cego de tristeza,
Nosso Senhor, com sangue e realeza,
Essa flor coloriu, maracujá...

Verdades são mentiras vespertinas

Verdades são mentiras vespertinas,
Pois muitas dessas vezes soam falso.
Aberto sob os pés, o cadafalso,
Parece que consegue essas meninas...

Num traste, traduzindo umas esquinas,
Por onde caminhavas; meu encalço...
Agora que pressinto, vou descalço,
No balanço das ruas que combinas...

Vasculho por verdades em teu rosto,
Não sinto nem procuro estar disposto;
Procurar descobrir tuas mentiras...

Dessa mesma maneira que m’atiras,
Me cortarias cedo, todo em tiras...
E devorava tudo, por teu gosto...

Cadê minha Tereza, foi pro mar

Cadê minha Tereza, foi pro mar...
Quem era ventania, virou brisa,
A morte traz medida mais precisa.
Quem fora majestade? Sem altar...

Depois dessa viagem, foi parar
Onde toda maré se torna lisa...
Tereza, bem distante, o mar avisa,
Que nunca poderei mais te encontrar...

Perdoe se não pude nem sentir
O que pensei doesse. Vou pedir
A Netuno que nunca mais te veja...

É tudo que minh’alma mais deseja,
Tua cabeça traga na bandeja;
Nem quero teu cadáver prá carpir...

Nas remessas que trazes, uma carta

Nas remessas que trazes, uma carta,
Uma mensagem triste de partida;
Avisa que terei por despedida,
As últimas notícias tuas, Marta...

Tantas vezes; Atenas, tu: Esparta.
A porta dessa entrada é de saída,
Pois quem amaldiçoa, traz ungida
A mão que acaricia, me maltrata...

No beijo; da saliva fez-se escarro,
Da lágrima sentida, tanto escárnio.
Recolho meus bagaços, meus farrapos...

Quem fora fantasia, simples trapos.
Nas mãos essas fraturas, todos carpos,
Na solidão do verso, que m’amarro...

O sal da terra trago em minhas mãos

O sal da terra trago em minhas mãos,
Vasculho, procurando em todo ser,
Quem dera poderia conhecer,
Aquele que transforma seus irmãos...

A mansidão traduz amores vãos,
Num único tormento por viver;
Instante tão feliz, novo saber.
A vida fecundando tantos grãos...

No teu martírio louvo a liberdade,
Procuro-te sem nada, sei que tarde;
Mas nunca poderei, de ti, fugir.

Castiçal de lanternas a luzir,
Um brilho sem igual, jamais vivi.
O teu nome traduz felicidade...

Nessa tristeza sinto, mesa e bar

Nessa tristeza sinto, mesa e bar,
Distâncias se completam na aguardente;
Quem me dera, poder, tão de repente,
Rever aquela boca, faz voar...

Minha cabeça roda, sem parar,
Despeço-me da pútrida serpente.
Nesse bar, melancólico e demente,
As cadeiras vazias, meu lugar...

Amei demais e sinto que perdi,
Não tenho outra verdade; pois, sem ti,
Que farei do que resta mais de mim...

Na pele, tens delícias de cetim,
Na boca, sutileza do carmim...
Pudera recordar o que vivi!

Jangadeiro que corre para o mar

Jangadeiro que corre para o mar,
Meu amor também busca por sereia;
Distante, vou sonhando nesta areia,
Nas praias onde tento te encontrar...

Saindo de manhã para pescar,
Esse sol, escaldante, te incendeia.
Saudades vai deixando, triste teia,
Que enreda quem viveu só para amar...

Na jangada, correndo com o vento,
Transportas esperanças, sofrimento;
As lágrimas sinceras que ficaram...

No retorno, tristezas se alegraram,
Outras vezes, as vidas acabaram;
E quem partiu, ficou no pensamento...

A palavra se solta, vai liberta

A palavra se solta, vai liberta,
A vida não mais pode controlar.
Tanta coisa passando por passar,
Quem me dera pudesse ser poeta...

Saberia viver forma completa,
Necessito de tanto ter lugar;
Quem fora simplesmente para o mar,
Traçando, normalmente, sua meta...

Quero o gosto das lavras e das minas,
Nas palavras que canto, cristalinas;
Existe tanta pressa de saber.

Os meus versos, embalde sem você,
São cometas; prometo, sem querer,
Laçar essas palavras tão ferinas...

Meus olhos são cascatas, a rolar

Meus olhos são cascatas, a rolar,
Chorando por quem nunca poderia,
Viver essa esperança, novo dia.
Na selva de teus olhos, vou buscar,

O tempo que não pude controlar;
A aurora que virá, mesmo tardia,
Me concedendo parte de magia.
Aurora vai chegar, tentacular...

Eu busco, nas esperas ,o teu canto;
Travando noite e dia, por encanto,
Quem sonharia parto, invés de luto...

Teus olhos tão perfeitos mas sou bruto;
Encarno a sensação, doce tributo,
De perceber enfim, teu olhar santo...

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Eu trago, nos meus olhos, a saudade

Eu trago, nos meus olhos, a saudade,
De quem jamais devia me ausentar;
Sem ela, desconheço claridade,
Sem ela, vou buscando meu luar...

Quem dera Deus tivesse compaixão,
De quem , errou na vida sem saber.
De quem somente teve sempre não,
Como resposta hostil, sem ter por que...

Não quero mais sentir a ventania,
Roçando meus cabelos, sem ter pena.
Quisera conhecer, um novo dia,
A noite, cruelmente, faz novena...

Vencido por temer guerra e fastio,
Num último poema, tento vê-la;
Sem ela, não existo, sou vazio,
Vagando, vaga-lume, quero estrela...

O zéfiro respira, me bafeja,
Transgrido as ordens, erro sem destino;
Perdido, sigo tendo essa peleja,
Perdendo meu sentido, desatino...

Quem dera se pudesse ser criança.
De novo correria para os braços;
Daquela que pensei, triste lembrança,
Um dia cerraria tantos laços...

Mas sinto que não posso resistir,
Em vão procuro tenras mansidões.
De tudo não consigo nem pedir,
Paz renovada, lastro dos perdões...

Momento atroz , penumbra d’existência,
Cartas jogadas fora, sem valor.
Te peço, tão somente por clemência,
Quem dera conhecesses minha dor...

Quiçá, então tivesses piedade,
Num último delírio dum poeta.
A vida não seria, essa verdade
Que extermina, de forma tão completa.

Amores já os tive, e os perdi,
Retratos bolorentos do passado.
Mas amar, tal qual amo, só por ti
O meu verso entoando triste brado...

Nunca mais te terei, minha centelha
Dessa luz que transporta meu desejo.
A lágrima que escorre vai vermelha,
Da boca que sonhei com tanto pejo...

Arranco dessa rosa, seu pendão,
Espinhos vão cortando os pobres dedos.
A terra vai s’abrindo, some o chão,
Em volta, nos contornos, só meus medos...

Vencido pela angústia e pelo fado,
Meus pés vagueiam loucos por estradas.
Que nunca compartilham, mesmo lado,
Seguindo paralelas, já cansadas...

Meus mares são vazios, sem marés,
A barca dos meus sonhos naufragou.
Eu pergunto a mim mesmo, se tu és
Meu todo, me responda o que sobrou?

Vivendo sem ter rumo e sem porém,
De que me serve luta sem ter glória.
Sem ter porque viver, sem ter alguém,
Meus dias vou perdendo, na memória...

Enfim, melhor morrer se não te tenho,
De que me servem festas da natura.
As matas todas, por onde eu me embrenho,
São cadafalsos, plenos d’amargura...

Te quero tão somente por querer,
Eu te fiz minha lira e minha voz.
Procurei por alhures, mas cadê?
A noite me tragou, vida feroz...

Quem sabe num momento de ternura,
Possamos reparar o que findou.
A luz, enfim, brilhando, noite escura,
Me traga essa esperança que restou...

A vida passou ávida de vida

A vida passou ávida de vida, pelo campo onde caminhava solitário.
Não quis ser mar nem ser maré, quis viver Maria, que nada mais continha a não ser poesia...
Mas me detinhas a cada passo, teu cansaço e minha sina, meu abraço e tuas pernas, penugens e paragens, margens e manhãs...
Quis ser sonho e pedregulho, ser seixo e ser queixume, deixo meu ciúme e minha cisma; cataclisma fatal sem fátuos fatos...

Num átimo um ótimo momento, um último madorno me adorno de teus ouros e perolados olhos. Nos óleos que me tramas, casas e camas, nas brasas, chamas e não respondo, oculto.
Te cultuo num duo infernal, sem eco, sem ego, trôpego, trafego e me apego a teu passo, pássaro solto, contrafeito...
Desfeito tudo que pudesse ser meu, mel e mal, Maria, o mar ia amar, andei e não te vi, bem te vi, mentiras e martírios.
Marujo sem sabujo, não sei se rei, sereia que seria minha teia, mas atéia, ateia tantas brumas, bruxuleante brisa, concisa e precisa, necessária...
Amar Maria, mar ondeia, nos seios, seixos e desejos, um beijo e um aceno, contraceno com velas e veleiros.
Nas mãos vazias, azias e ânsias, anseias seres livre, me contive e não tive outro chão...
O vão aberto sob meus pés, fendida a praia, fendida a saia, a baia, o portão...
O porto longe, a vida longe, longevidade para quê?
Na seda que roubaste e vestiste insiste meu tato, permite o olfato que, de fato serei ato, sou regato e regado a tanta maresia...
Mar se ia sem Maria, sem marés e sem viés para o invés do investido, antes tivesse ido, morrer no mar, sem Maria, sem mares, sem marés, sem poesia...

No meu cabelo ao vento, quero pente

No meu cabelo ao vento, quero pente,
Na minha mão sedenta, peço luva.
Como é cruel sentir a dor de dente,
Choveu mas esqueci meu guarda chuva...

Mordendo, teu veneno de serpente,
Quando passas, renovas passas, uva...
Como enxergo? Dos óculos és lente,
Nas baladas, embalas quando groova...

Nem versos meus, conversas jogo fora...
Na partida parida pela guerra.
Se tanto quis outrora, quero agora.

Não sei bem certo, tudo que me encerra.
Na natureza, certo és fauna e flora..
O templo mais gostoso desta terra...

Extraio poesia da cachaça

Extraio poesia da cachaça,
Num copo ressuscito tanto trago,
A vida bem melhor, dança na praça.
O resto dessa farsa, fez estrago...

Nos livros que devoro, como traça,
Reparo nos prefácios Nem indago.
Palhaço, vou temendo não ter graça,
Do que restar caduco, tudo embargo...

Na minha certidão de nascimento,
Não tive solução para o problema.
Ser filho da saudade e esquecimento,

Não quero nem desejo ser teu tema,
Vivendo por saber que casamento,
É como um ovo, feito clara e gema...

Vida vai sem sentido vai sem nexo

Vida vai sem sentido vai sem nexo,
Eu tento solução, mas não consigo,
Procuro mãos, encontro só teu sexo,
Beijando calmamente, então prossigo...

Não quero conceber pois sei complexo,
O sentimento fútil, meu abrigo,
Respondo nesta carta, vai anexo,
O que restou, guardou perfeito artigo.

Sentido cravo nesta marcação,
Embora saiba nunca deste não,
Num átimo servil, não faz sentido.

Mimosa fosse rosa o teu pedido
Me deixe ser somente teu marido,
Quem sabe irei tocar teu violão?

Minha mão passeando por você

Minha mão passeando por você,
Buscando por seus seios divinais.
Querendo, tão somente me perder,
Em meio a suas selvas, matagais...

Meus lábios, vão buscando, por querer,
Entradas e bandeiras, quero mais...
Vertendo meus desejos, vou saber,
Onde encontrar você; mananciais...

Vou descer, mansamente, cachoeira;
Que em meio a suas pernas, incendeia.
Saber lhe conhecer, viver, inteira.

Intensas as fogueiras que incendeia;
Não quero nem saber da verdadeira
Morfina; seu amor, em minha veia...

Bastam-me mais uns poucos sentimentos

Bastam-me mais uns poucos sentimentos,
Não quero transformar tristeza em ouro.
Minha história não cabe tais momentos,
Essa faca penetra no meu couro...

Arrebentando tudo, seguem lentos,
Meus cruéis guias, sabem dess’agouro.
Nada seria nem sérios os ventos
Que me retornam, livre matadouro...

Me deixaram saber que não partilhas,
De minha sina, víbora-veneno.
Nem os teus cães, caçando nas matilhas,

Conseguem penetrar meu sonh’ameno...
Fugindo sem parar, quer’essas ilhas,
Que me dariam, sono mais sereno...

Meu amor, não saber por onde anda

Meu amor, não saber por onde anda,
Embriagado, restam-me tremores.
É jóia rara, como um urso panda,
Quem me dera sentir perfume e flores...

Sua festa, clarins tocam na banda;
Nas ruas, alamedas dos amores...
Tanto quero, liberto-me em Vanda,
Seus caminhos, por onde vai, olores...

No sentimento, lúdico, d’amor;
Por um momento, vértice de luz,
Vanda me faz sentir por onde for,

A vida leve, é breve minha cruz,
Deste cenário, sigo sendo ator,
Ao fundo um cego, triste, toca blues...

Participo de todo este cenário

Participo de todo este cenário,
Na procura de nova solução
Se vivo, não sou canto nem canário.
Nem quero ser problema nem senão...

Sou vertigem sentido e campanário,
Muitas vezes prendi porta e porão,
Não temo nem sequer sou temerário...
Calha quebrando encalha o coração...

Vate sem termos tento ser poeta,
Nessa busca incansável pela musa,
Minha noite sem horas, sei completa,

Nos cabelos, serpentes, és medusa.
Nos teus olhos, carpidos, sangue injeta.
Que delícia: tirares tua blusa...

Sensual, teu corpete cor de rosa

Sensual, teu corpete cor de rosa,
Fazendo delirar minha libido.
O olhar deliciado, faz que goza,
Em tal emaranhado, sem ter lido

Sequer algo que fosse nova prosa.
Amor, batendo forte, descabido,
Tritura tantas manhas, antegoza,
Do que mais poderia ter sentido...

Teu corpete caído no sofá,
Esquecido, traduz os meus anseios.
Como que se pudesse, estando lá;

Acariciar, toda, sem rodeios,
Essa bela mulher, gata angorá,
Dos seios que permitem devaneios...

Vai chovendo confetes sobre mim.

Vai chovendo confetes sobre mim.
Na festa, pela fresta da janela,
Tanto ser pierrô , ser arlequim,
Saudades são tão minhas quanto dela...

Não quero carnaval, nem mesmo assim,
Tampouco vou saber ser sentinela,
Dessa rosa que morre, cor carmim,
Nas manhãs, que me devora, singela...

Rompe dia, sem tento nem sustento,
Teu grito, colombina, foi engano.
Se matasse, veria cortar lento,

O que me dera, solto, simples plano,
Que me deu conforto, mais de cento,
Meus amores estragam e eu m’abano...

Me dê tuas mãos, vamos procurar

Me dê tuas mãos, vamos procurar,
Nos espaços celestes, nossa cama.
Quem sabe bem por onde começar;
Conhece, dos amores, toda a chama...

Vamos nessas galáxias, luar,
Procurar nos cometas todas tramas
Que, sem sentir, passamos a vagar;
Nas florestas divinas tantas ramas...

Vamos em busca do sonho perdido,
Onde nunca mais quero ver ocaso.
Meu mundo, tempestades, dividido.

Entre tantas certezas e o acaso,
Eu sou o alvo, flechado por Cupido,
Sem ter rumo, sem meta, sem ter prazo...

Cordel - A minha sina - capítulo 1 - O coronel e o doutor


Vou curvando minha vida,
Nas capotadas da sorte,
Perdoando até a morte,
Que sei que traz despedida.
Minha sina, minha vida,
Carrega tanta certeza,
De fundear a tristeza,
De trazer pano pra manga,
A morte, minha capanga,
Flutua desta leveza.

Fiz parto de sucuri,
Namorei onça pintada,
Minha sorte não foi nada.
Carreguei o que perdi,
Travei luta e não venci.
Deu empate nessa joça.
Fiz uma nova palhoça
Para morar com você;
Queria lhe conhecer,
Plantei uma nova roça.

Você foi minha quimera,
Não conheci sua manha,
Minha lida foi tamanha,
Dentro da minha tapera,
O sal da vida tempera.
Plantei feijão, plantei milho,
Plantei, em você, um filho.
Fiz da lenha essa fogueira,
Minha velha companheira,
Só tem cano e tem gatilho.

As armas da solidão,
São as mesmas que disparo,
Com meu amor, eu deparo,
Nas rotas do meu sertão,
Bebo o sim, conheço o não.
Vadiando sem parar,
Sem ter nem onde chegar,
Sou um passo da saudade,
Vou mesmo sem ter vontade,
No sertão virando mar...

Cravo dente na maçã,
Da cara de quem me escarra,
Tenho dentes tenho garra,
A vida segue mal sã.
Tem tempero d’ hortelã...
Nas enchentes da ribeira,
Desabou a barranceira,
E cobriu casa e estradão,
Nada restando, senão
Uma cama e uma esteira...

Nas ligas dessa fornalha,
As plagas se confundiram,
Vieram e se fundiram
Numa ponta de navalha,
Nessa dor bem mais canalha.
No medo da poesia,
Fiz a minha moradia,
Nos altos desse penedo,
Mas a chuva meteu medo,
Só restou melancolia...

Coronel Antonio Bento,
Cabra muito descarado,
Só matou pobre coitado,
Sempre a gosto e a contento,
Nem precisa juramento...
Pois mesmo de safadeza,
Carregado na pobreza,
Matou sem pedir licença.
Matou mais que a doença,
Por causa de miudeza.

Deu três tiros em criança,
Comeu ovo de valente,
Matou cabra já doente,
Se não me falta a lembrança,
Matou até esperança...
Sem dar chance de defesa,
Foi o rei da malvadeza,
Não perdoa nem defunto,
Quando a morte é o assunto,
Coronel é realeza...

Pois bem, meu companheiro,
Conto sem titubear,
Pela luz desse luar,
Juro pelo mundo inteiro,
Que no dois de fevereiro,
No sertão da Muriçoca,
Coronel virou paçoca,
Nas mãos desse matador,
Contratado por Doutor,
Lá da serra da Minhoca...

Doutor lá da medicina,
Homem muito conhecido,
Famoso por ser sabido,
Que conhecendo Marina,
Pelo amor, mal assistido,
Quis levar ela pro céu,
Nessa vida assim, ao léu,
Nos colos dessa montanha,
Conheceu a dor tamanha,
Na filha do Coronel...

De emboscada, na tocaia,
Foram três tiros com fé,
Dois na cabeça e um no pé,
Estribuchou qual lacraia,
Bem antes que o mundo caia,
Escapou por um milagre,
Mas a vida pro vinagre,
Ficou quase sem andar,
Agora deu de sonhar,
-Vou pescar aquele bagre...

Lá na capital mineira,
Escondido na grandeza
Da cidade, na certeza,
De que numa vez primeira,
Preparava uma rasteira,
Para o Coronel safado,
Mundo gira, tá girado,
Tempo passa sem parar,
Não perde por esperar,
Já tá tudo combinado...

Passa mês, passa dois, três,
Passa um ano sem notícia,
A vida naquela delícia,
Coronel matando rês,
Volta e meia, outro freguês.
Tudo em paz, na paz da morte,
Quem tiver pouco de sorte,
Escapa da covardia,
Vê nascer mais outro dia,
Sabe que é gado de corte...

Numa ponta de fuzil,
Na bala bem atirada,
Vida não valendo nada,
Coração batendo vil,
Nessas terras do Brasil.
A morte por encomenda,
A solidão vira tenda,
Vai cortando esse caminho,
Cabra andando tão sozinho,
É, da morte, compra ou venda...

Acontece que, Marina,
Moça bonita e safada,
Me pegou só, de empreitada,
Pela luz que me ilumina,
Foi a minha triste sina...
A moça bem sem vergonha,
Me deitou mesmo sem fronha,
Num travesseiro de terra,
Lá bem n’alto dessa serra,
Que prazer e dor medonha!

As pernas da moça prendiam,
Eram como um alicate,
Prontas para esse arremate,
Davam prazer e ardiam,
Depois, de novo, fugiam...
Madrugadas com Marina,
No mato, bem de surdina,
Dos grilos, de companhia,
Mordia, depois gemia,
Marina, doce menina...

Sabendo que essa querência
Era coisa do diabo,
Pisando em Satã, no rabo,
Imaginei qual valência
De morrer sem clemência...
Mas a vida tem seu jeito,
De fazer desse mal feito,
Uma nova circunstância,
Mesmo tendo na distância,
Essa dor que dói no peito...

Quis a vida, no seu bote,
Trazer minha solução,
Sem ter mesmo precisão,
De sangrar o seu cangote,
Nem viver desse rebote,
Tive a sanha mais querida,
De salvar a minha vida,
No meio desse pagode,
Matar esse velho bode,
Era a minha despedida.

Acontece que o doutor,
Sabendo da valentia
Que meu nome já dizia,
Entre os cabras de valor,
Escolheu, pra matador,
Dentre os homens do quartel,
Que sangrasse o Coronel,
Esse que aqui vos fala,
Me deu rifle, me deu bala,
Pra mandar ele pro céu...

Fiz que não queria tento,
Pois já conhecia a fama,
De deitar gente na lama,
De não ter um pensamento,
De saber que esse jumento,
Era a mais terrível fera,
Que riscava até cratera,
Nas pontas do cravinote,
Era preparar o bote
Que a morte sempre se gera.

Cobrei desse Satanás,
Pra fazer esse serviço,
Que eu mesmo já cobiço,
Quase vinte mil reais,
Se pedisse, dava mais...
Da raiva que ele mantinha,
Da tristeza que ele tinha,
De não poder mais andar,
Da querência de vingar,
As balas que ele retinha...

Numa noite sem ter lua,
Me preparei para a caça,
Com uns goles de cachaça,
Me dirigi para a rua,
Onde o medo não atua,
Onde a saudade não vinga,
Eu tomei mais uma pinga,
Prá coragem não fugir,
Na certeza de engrupir,
Os quatro ou cinco safados,
Que, pau desses bem mandados,
Dali não iam sair...

Acontece que, chegando,
Na casa do celerado,
Olhando assim, bem de lado,
Eu fui logo reparando,
Nesses olhos que, m’olhando,
Diziam pois sem dizer,
Que bem queriam me ter,
Da forma que sempre teve,
Na cama que me conteve,
Do jeito que fosse ser...

Marina, bem safadinha,
Camisola transparente,
Dizendo ser eu parente,
Do mesmo saco, farinha,
Me fez de galo, a galinha.
Colocou dentro de casa,
A fogueira e toda a brasa,
Que queriam tanto arder,
Era matar ou morrer,
A vingança não se atrasa...

Fiz da sorte, o sortilégio,
A vida foi na maçada,
Sangrou até na calçada,
A morte sei do colégio,
Matar foi meu privilégio.
Sei de tanta valentia,
Que não viu raiar o dia,
Sangrada no coração,
Não deixou sequer razão,
Nem a sorte que queria...

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Seu moço, tanta saudade -Décimas

Seu moço, tanta saudade,
Foi feita de sofrimento.
Por um único momento,
Vasculhei realidade,
Passei por campo e cidade.
Procurei por meu amor,
Quero seu colo e calor.
Não encontrei nem indício,
Meu amor foi precipício,
Onde afoguei minha dor...

Meu tempo, disso estou certo,
Não teve nem mais valia,
Decerto que não sabia,
Não estava nem por perto...
Sei que viver é correto,
Mas de que vale sem ter,
Sem seu amor vou morrer,
Disso não tenho medo.
Seu amor foi o segredo
Mas que faço sem você?

Nas noites de solidão,
Que são as mais doloridas,
Me lembro das despedidas,
Vou pedindo seu perdão...
Me devolva o coração,
Sem ele, minha querida,
De que vale minha vida,
Nisso é melhor nem pensar,
Não tenho rumo ou lugar,
Não cicatriza a ferida...

Meus versos são bem tristonhos,
Por que ‘inda quero sonhar?
Sem você não há luar,
De que servem os meus sonhos...
Somente sonhos medonhos,
Povoam a madrugada,
Minha vida não é nada,
Sem ter você nada sou,
Minha estrada se acabou,
Cadê você, minha amada?

Nascido em terra distante,
Meu amor foi verdadeiro,
Da minha vida, o primeiro,
Que me deixou radiante.
Achei que eu era importante,
Em sua vida, meu bem.
Hoje sei que fui ninguém,
Nada fui para você,
Mas como posso viver,
A minha vida é um trem...

É tão triste a sina, agora,
A de não ter a mulher,
Que o peito da gente quer,
Por quem a gente só chora.
Saudade vem, me devora,
Engole meu coração,
Vomitando solidão,
Saudade bicha danada,
Acompanhou minha estrada,
Não quer me deixar mais não...

Procurei pelos seus braços,
Por sua boca divina,
Fiz minha alma cristalina,
E nem quis outros abraços,
De você nem vi os traços...
Perdida por outra banda,
Por onde é que você anda,
Me responde, eu lhe peço,
Senão, lhe juro, tropeço,
Nas danças dessa ciranda...

Meu amor trago meu canto,
Nas décimas que lhe faço,
Mas já perdi meu compasso.
Naufragado em seu encanto;
Restando só o meu pranto,
Não consigo meu intento,
Minha voz, perdida ao vento,
Você nunca vai ouvir,
Desde o dia que perdi,
Só conheci sofrimento...

Quem souber dessa morena,
E cujo nome é Ritinha,
Não é alta, é bem baixinha,
Tem uma boca pequena.
É calma, muito serena.
É bem fácil de encontrar,
É só olhar pro luar,
E reparar na beleza,
Assim, com toda certeza,
Fica mais fácil de achar...

Ela não anda, flutua,
A fala dela é de fada,
Por todos é adorada,
Ilumina toda a rua.
Minha vida é toda sua...
Tem os pés mais delicados,
São, por Deus, abençoados.
São provas que Deus amou,
Tudo que dela restou,
No meio dos meus guardados,


São essas fotografias,
Que mostro para vocês,
Repare bem nessa tez...
São repletas de magias,
Obra prima que Deus fez...
Moço, me diga a verdade,
Por minha felicidade,
Me responde, bem ligeiro
Se já viu, no mundo inteiro,
Me diga, por caridade,

Onde encontra essa tal moça,
Em que país ou Estado?
Coração descompassado,
Chorando, pede que ouça,
Meu lamento desgraçado
Já não chora outro chorar,
Não canso de procurar
Quero encontrar a Ritinha
Que num dia já foi minha,
E que não sei onde está...

Caminhão vai cruzando essas estradas Sextilha

Caminhão vai cruzando essas estradas,
Norte-sul, sem temer as curvas, segue.
Nas descidas, banguela. Nas lombadas,
Nada impede que suba e que carregue,
Um país, nessas tantas toneladas...
Percorrendo os caminhos de mãos dadas,

O progresso e futuro, são seus passos...
Vagando, sem temer má sorte e sina,
Caminha, faz das retas, seus espaços,
Muitas vezes, audaz, nem mesmo atina
No valor que se insere nos seus braços...
O caminhoneiro esquece seus cansaços...

Saudade...

Guinada da saudade, faz doer...
Não quero nem saber de ter saudade.
Saudade muitas vezes, faz morrer,
Saudade faz estrago, de verdade...

A saudade traduz verbo sofrer,
Conheci tal saudade, tenra idade...
Tenho tanta saudade de você,
Saudade dos teus olhos, claridade...

No que saudade mata, sei de cor.
As luas da saudade me torturam,
Saudade dess’amor, que é o maior.

Os males da saudade só se curam;
Onde a saudade vive bem melhor,
Nos braços que, saudade, mais procuram.

Quero ser aprendiz de feiticeiro

Quero ser aprendiz de feiticeiro,
Fazer meus versos simples sem buril.
Cantar amor, meu sonho brasileiro,
No meio da poeira, pueril...

Quero aprender da vida, por inteiro,
O que, bem antes, fora mais gentil.
Travar batalhas, tantas, com tinteiro;
Tentar pintar, com cores, meu Brasil...

Minhas mãos calejadas não se calam,
Procuro em formas límpidas, meu sal.
Essas palavras soltas tanto entalam,

Que se não as escrevo, fazem mal.
Os perfumes qu’as almas sempre exalam,
Carrego bem comigo, no bornal...

Balançado o coqueiro, peço a Deus

Balançado o coqueiro, peço a Deus,
Que me dê um pouquinho de alegria.
Quem me dera não fossem tão ateus,
Os dias que perdi por ti, Maria...

Sertanejo, decerto, sabe os breus,
E conhece, também, manhas do dia...
De Julietas sabe, e dos Romeus,
Esperando calar a cotovia!

Na tristeza dos versos, por paixão,
Decerto viverei minha esperança.
Extraída de tanta distração,

Esperança bandeia da lembrança.
Restando tão somente o coração,
Vivaz como brinquedos de criança...

Por que não sei falar dessa maneira Oitavas camonianas

Por que não sei falar dessa maneira,
Usando os verbos vagos, virulentos,
É que perdi meu tempo, uma bandeira,
Desfraldada por sobre os excrementos
De quem tentou ferir sobremaneira
A quem amara, em todos os momentos.
A vida me ensinando não temer,
Eu vou correndo sempre, mas por quê?

Quis tragar melodias e senzalas,
Não pude mais conter esse chicote.
Mas as costas lanhadas onde exalas,
Não me deixam sinal, quebrei o pote...
Traduzindo seara, levo malas
Em busca da saída, vou a trote.
Mas queria viver teus novos dias,
Nas nocivas franquezas que medias...

Num ato de belíssima vontade,
Misturando, sagaz, novas cantigas.
No que não poderemos crer saudade,
Eram senão pedradas mais antigas.
Coram, cegam, feroz realidade.
Queimando como fosses tais urtigas,
As que n’alma repetem cantinelas,
As mesmas que quisemos, serem delas...

No meu karma sei pétrea solidão,
Onde navegaria tantos portos.
No dizer sim, queria tanto o não,
Carregando por certo, velhos mortos.
Na melhor melodia que verão,
Perderei tantos rumos, que sei tortos.
Minha lança, lanceta e confraria,
Nos bares e botecos; dê sangria...

Capuccino, cachaça, chá e mate,
Novos sabores, fluidos paladares;
Da vida sempre torta, um arremate.
Nos teus olhos repletos dos altares,
Brilham loucos fantasmas do combate...
Revejo minha triste lucidez
Quem me dera perder a minha vez...

Pus e sangue, mistura delicada,
Que, emanando de todos os meus dedos;
Fazem-me saber, como está errada
A vida que criei de meus segredos.
Quando permiti noite, madrugada,
Deixei armazenados os meus medos...
Num quero nem concebo liberdade,
Vagando pelos parques da cidade...

Nascido nessas terras das Gerais,
No que pude sentir, foi tudo a esmo.
Não temo nem tempestas, vendavais,
Criado, de cedinho, com torresmo.
Em meio a cercanias sem jornais,
Aos olhos dessa noite, sou o mesmo...
De pequeno, nutrido com coragem,
Desse rio, conheço fundo e margem...

Fui ninado com sangue e com melaço,
Rasguei no mundo berro e valentia.
Peito duro, mineiro, ferro e aço,
Criado a tapa, restos, serventia...
Força nos olhos, pernas e no laço,
Por onde acordei, vida sem valia.
Traquinagem, comer sem saber faca,
Beber da fonte, tetas dessa vaca...

Orgasmos madrugada, tua saia...
No canto, no curral, em pleno mato,
Nem sei de mar, vivendo minha praia
Na beira doce, peixes no regato...
Em plena confusão, rabo d’arraia,
Na morte fiz carinho, sei dar trato...
Quebrando minha perna, sem ter pena,
De longe, traz as pernas da morena...

Vadio violão foi meu resgate,
No colo dessa serra, serenata...
Saudade faz que mata, dá empate,
Menina, levantei a tua bata...
Preciso, cafuné, qu’alguém me trate,
Eu quero te lavar nessa cascata.
Jogando nessas pedras da ribeira,
Teu corpo, penetrando-te, mineira...

Costeleta da Serra D´Espinhaço,
Fiz cabelo, bigode e barba, tudo...
Eu quero me deitar no teu cansaço,
Guardando meu diploma, meu canudo,
Em meio a tuas pernas, teu regaço...
Entrando mais calado, saio mudo.
Talvez me guardes todos os mistérios,
Nem temo teus amores, nem venéreos...

Cresci sofrendo tapa e pescoção,
Na lida atroz, enxada e cavadeira.
Nos brejos, sem temer por podridão,
A vida foi completa escarradeira.
Vacina de menino, de peão,
É feita de porrada, a vida inteira...
Das vespas que mordiam, fiz meu mel,
Da lida mais difícil trouxe céu...

Meu medo foi ter medo de lutar,
Não quis compressa, quero bisturi.
Cada ferida nova que brotar,
Capítulo relido que vivi...
Somente meus, serão; velho luar,
Os olhos dess’amor que já perdi...
Capricho sem temer, por resultado,
Os cortes que sangrei, apaixonado...

Recebendo a herança mais maldita,
O traste que pariu minha cadeia;
Não queira meu Senhor, que se repita,
A bosta que transcorre em minha veia...
Minha mãe, talvez, fosse mais bonita,
Se não tivesse sido uma sereia...
Que o boto mais pilantra desse mundo,
Safado caboclim, um verme imundo...

Criado sem ter beira nem paragem,
Escravo desd’o dia de nascido.
A vida preparou a sacanagem,
Bem no olho dessa serra, fui cuspido.
Quase que me perdi na traquinagem,
Mas, embora isso tudo, fui crescido...
Vômito de mendigo esfomeado,
Coragem coração, fez cadeado...

Meu cigarro da palha mais curtida,
No milharal da vida, colhi nada.
Serei por certo, servo e despedida
Nunca saberei sorte e tabuada,
Mas não reclamo nada dessa vida,
Estou vivo, e se dane essa embolada.
Na poeira joguei nome e meu futuro,
A morte me espreitando ‘trás do muro...

Fiz cósca em cascavel, minha tapera,
Tem as portas abertas para a morte.
Não temo solidão, nem bicho fera;
Eu queimo, em toda curva, a minha sorte.
Cachaça com limão, vida tempera,
Bem no meu coração, de grande porte,
Cravei as verdadeiras, duras, garras.
Não quero mais saber dessas amarras...

Veloz, eu fugirei dessa saudade,
A saudade de nunca mais ter sido.
A saudade feroz, felicidade,
Que nunca mais terei, nem conhecido.
Oprime o peito, face essa verdade,
A de não ter, jamais, nem ser nascido...
Queria, por momento simplesmente,
Um segundo sequer, me sentir gente...

Vieste como tábua; salvação...

Vieste como tábua; salvação...
Acreditei que; enfim, tinha encontrado,
A porta da saída, a solução.
Porém, vida mordaz, deu seu recado:

Em poucos dias, foste um outro não.
Perdido, sem saber para que lado
Poderia encontrar outro portão,
Bato de porta em porta, des’perado...

Vieste, muito cedo, me deixaste.
Agonizei na nova despedida.
Dos meus olhos,vou cego, tu levaste

Toda luz que guiava minha vida...
Perambulo, sem rumo, sou tal haste
Que nunca mais terá prumo, perdida...

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Perguntas; vento leva para além...

Perguntas; vento leva para além...
Respostas nunca chegam por correio.
Saber se quis gostar, se fui alguém,
Se houve tempestades ou recreio...

Muitas dessas premissas caem bem,
Entretanto,outras tantas, nunca ateio.
Somente vasculhando sei que; sem
Muitas delongas, erguem os teus seios...


As respostas do vento, ou do mar,
São todas intrigantes, verdadeiras.
Netuno bem sabia navegar,

Zéfiro ao soprar, límpidas traineiras,
Velocidade injeta, sem parar.
As respostas virão, dessas maneiras...

Sextilha com estrambote - As portas do que fomos entreabertas

As portas do que fomos entreabertas,
Deixando tão somente uma certeza;
Quem dera se depois de descobertas,
Nossas farsas pudessem dar grandeza
Ao caminho que, temos que encontrar,
Nem que seja, somente para andar...
Sem nunca chegar!

A véspera da fome é o degredo

A véspera da fome é o degredo;
Por isso não segregue o coração.
Segredes o mais límpido segredo,
Mas nunca me permita a solidão...

Da vida já nem quero novo enredo,
Me basta ser feliz; que vou fazer?
Não quero temerário nem ter medo,
Só quero, simplesmente teu querer...

Espero nova espera mais feliz,
Num tempo que se torne mais amigo;
Anseio por teus seios, meretriz.

No mérito que tomas por perigo,
Artigo que me trouxe: flor de lis.
Tateias teus tentáculos, nem ligo...

Ah! Quem me dera fosses meu amor!

Ah! Quem me dera fosses meu amor!
Como a vida seria mais completa.
A poesia, amiga predileta,
Companheira, por onde quer que eu for;

Teria enfim, parceira mais dileta.
E nunca mais seria um sofredor,
Quem sempre teve espinhos nunca flor,
No sonho audaz, tentando ser poeta...

Se fosses meu amor, que bela a vida!
Andar buscando glória, sorridente.
Não conceber sequer a despedida...

Sentir o teu perfume que, envolvente,
Penetra nas narinas. Na sofrida
Luta por viver; sentir-me gente!

Pomba rola voando vai distante

Pomba rola voando vai distante,
Escapando, veloz, da atiradeira.
Por esse tempo todo, galopante,
Meu coração fugindo, vida inteira...

Nas cordas do meu pinho, delirante,
Procuro te encantar; és a primeira
Que me tomou as rédeas, dominante...
Quem dera se dormisse em minha beira!

Traços livres, desenho teu retrato.
Resenho nossos livros sem prefácio.
Estilos contrapostos; insensato,

Difícil entender se fosse fácil.
Mas quero m’afogar no teu regato,
Quero morrer d’amor no meu Estácio...

Poeta, disse Pessoa Trova

Poeta, disse Pessoa,
É um cabra fingidor.
Vou fingindo que ela é boa,
Ela diz que eu também sou...

Patroa, tome cuidado,
Não bote essa minissaia.
Se cometer o pecado,
A senhora toma vaia...

Não bote culpa na idade,
O seu tomara que caia;
Por ação da gravidade,
Tá batendo lá na saia...

O vento é bom companheiro,
Não deu outra, ele não “faia”,
Tá ventando no terreiro,
Como é bonita essa saia...

Pinguço não toma cana,
Sacana não bebe pinga.
Se embananou, dê “banana”,
Mas, se fedeu, não me xinga...

Maricota fez melado Trovas

Maricota fez melado,
Joaquim foi lá provar.
Desse mel saiu molhado,
Agora não quer casar!

Bateu trem com um fusquinha,
Pouquinha coisa restou.
Maria, Mariazinha...
A outra metade ficou.

Levei água na peneira,
Com ela tampei o sol.
Namorei a noite inteira;
O marido? Futebol...

Moço tome cuidado,
O telhado é bem miúdo.
Pode ficar agarrado,
Ou furar com telha e tudo...

Da licença d’eu contar,
O que foi que sucedeu...
Pescaria no luar,
Até piranha rendeu...

Fiz um bote de cortiça,
Pr’ele melhor flutuar.
Vê se pára de cobiça,
Sereia não vou pescar...

Nesse vaso sanitário Trovas

Nesse vaso sanitário,
Me lembrei bem de você.
Flutuando fica hilário,
Não consigo lhe esquecer...

Toda vez que penso em ti,
Lá vem a dor de barriga.
Um danado piriri,
O resto, bem, é lombriga...

Minha sorte tá lançada,
Nos dados da solidão.
Amor é carta marcada,
Sempre sofre o coração...

Jogatina, Tina joga,
Joga tanto sem parar...
Na tina que Tina roga,
Nunca praga de rogar...


Na manhã do meu amor,
Entardece essa beleza.
Anoiteço em teu calor,
Vou vivendo realeza...

Nascido joão de barro Trovas

Nascido joão de barro,
Fiz uma casinha pr’ela;
A danada tirou sarro,
Tranquei até a janela.

Solução pra casamento,
Quando o troço dá quebrante;
Dar três fora e uma “dento”,
É melhor ter uma amante...

Jornal velho e repetido,
Não serve mais para nada.
É melhor não dar ouvido,
Ou troco de namorada...

Fabriquei uma viola,
Fiz dois traços, distração.
Passarinho na gaiola,
Não sabe cantar mais não...

Jogo de carta marcada,
É tremenda sacanagem.
Não vou dar essa mancada,
Casamento é só bobagem...

Jesus Cristo, nesse mundo Trova

Jesus Cristo, nesse mundo,
Era um simples carpinteiro.
Agora tem vagabundo,
Querendo ganhar dinheiro...

Se vaso ruim não quebra Trovas

Se vaso ruim não quebra,
Andorinha faz verão...
Quando você se requebra,
Estraçalha o coração...

Menina fez um remendo,
Nessa colcha de retalhos;
Tô com sede, vou comento,
Alhos junto com bugalhos...

Minha casa é de sopapo,
Meu amor de pescoção.
Galinho que é bom de papo,
Ensopado com feijão...

Minhoca metida a cobra,
Vira logo minhocão.
O que tem muito não sobra,
O que falta, é solução...

Vara de pescar quebrada,
Também pega lambari.
Eu quero você pelada,
Seja lá ou seja aqui...

Quem não cola faz escola,
Quem colou e se deu bem;
‘Tô passando essa sacola,
Boto dez e tiro cem...

Vigarice do Dodô,
Deu-se bem e caiu fora.
Procuro por meu amor,
Ele também foi embora...

Trova

Na lanterna desse olhar,
Refletiu todo meu céu;
Do meu amor, quero o mar,
Tenho aveia, quero o mel...

Memória, crudelíssimo carrasco

Memória, crudelíssimo carrasco,
Termômetro de quantos vendavais...
História, vai girando seu fiasco,
Num tom sobre tom, marca, contrafaz...

Colibri, pirilampo, país basco,
Sonoridades sépias, nunca mais...
No paralelepípedo, meu casco.
E, vergonhosamente, tudo trais...

Beija-me muito, quero contra-sensos,
Acender aos celestes magazines...
Meus sábados, domingos são imensos...

Na praça, atenção: todos esses cines,
Passarão mesmo filme, são pretensos...
Não há tino, nem cetro, desatines...

Vinil

Só, jogado, esquecido nesse canto,
Deixado ao pó, segundo plano atroz...
Quem, outrora, movera tanto encanto,
Relegado deixado sem ter voz...

Noutros dias, causara tanto pranto,
Atando e desatando laços, nós...
Hoje, quem te viu, sabe o desencanto
Que trago ao perceber-te, sem seus dós...

Namoros começaram, terminaram...
Embalavas amor, manso e servil.
Os nossos sentimentos afloraram,

No suave rodar bem mais gentil,
Que tristeza profunda nos qu’amaram,
Ouvindo teus cantares, meu vinil...

O Piolho

Um piolho vagueia sem ter pressa,
Na cabeça, coçando sem parar...
Passeio de piolho coça à beça.
Não consigo parar de me coçar!

Ó bichinho danado sai depressa...
Não quero e nem pretendo te aguentar!
Parece que prazer te dá, or’essa!
O quê que irei fazer pra me livrar?

De noite, então, martírio fica feio...
A caspa, companheira xexelenta,
Com ele faz dueto e eu no meio...

Já passei, na cabeça, até pimenta,
Não adianta, logo que bobeio,
Recomeça a coçar, a piolhenta!

Oitavas camonianas - Dorian Gray

Bares e bordéis, bordas sem aparas,
Em meus dedos, falanges e fraturas.
Tento tragar tentáculos e taras.
Nas mãos cansadas, noites escuras...
Vadeio vagamente, envergo varas
Iscadas em tais margens. Armaduras
São as minhas defesas, indefeso.
Crustáceo ameaçado no defeso...

Fracassei, quis demais, nada resume.
Não quero saber sempre, nem talvez.
Restou um gesto amargo; vou, estrume,
Onde pensara um dia, na altivez.
Procuro mansidão por onde aprume,
As mais diversas formas, tanto fez...
Não virgulo, decifro ângulos retos,
Por mais que se queira, são incompletos...

Vendi alma, nos verdes campos postos...
São clamores senis, são veros vagos,
Nervos e dentes, quebro-os. Impostos
Colocados sobre velhos estragos,
Não trazem nem sequer tosto-os;
Meus medos nadarão nos outros lagos.
Por certo, caridade nem demérito,
Demovem quem sonhou seu próprio féretro...

Nasci do mais decrépito dos medos,
Busquei nas madrugadas, meu sustento.
Não fui completo, simples arremedos,
De quem tentara tanto fosse tento...
Enganos, meus engodos, sempre ledos,
Palavras vão mais soltas, neste vento..
Sangrei cada momento sem desculpas,
Procuro por amores, tenho lupas...

Cimitarras; usei nestas batalhas,
Conta qualquer que fosse esse inimigo.
Vivendo, sobre lâminas-navalhas,
Carrego os meus delírios cá comigo...
Quando estou decidido; tudo talhas,
Entalhados na brasa do perigo...
Não quero nem machados e nem sândalo,
Amores me fizeram, enfim, vândalo...

Cusparadas no rosto são promessas,
Hemorragias, vertem no meu ventre,
E vens, tão calmamente, com compressas.
Dane-se, nada quero que m’adentre...
Se são meros deslizes, são conversas.
Meus portais são marcados por: Não entre!
Não quero e nem permito que me ceifes.
O que me trazes cabe nos esquifes...

Víbora e cascavel, conheço bem...
Não trazes outra marca bem o sei.
No breu das velhas tocas, sem ninguém,
Conheço teu passado e tua lei.
Fingindo caridade, cadê? Sem...
Nas tuas ladainhas me acabei.
Prato escarrado, cuspo em quem cuspiu.
Mordaz, irei mordendo. Me esculpiu...

Retrato a realidade em que me deixas,
No basta, bastaria meus embates,
Não quero nem saber de tuas queixas,
Nem quero mais ouvir tais disparates.
Me finges ser esfinges, talvez gueixas.
Prometes novo canto, mas combates
Quem poderia, límpido, caber.
Me deixas; assim, lívido, porque?

Me enojo quando beijo tua boca,
O gosto podre emana quando ris.
Te fazes de sutil, mas te sei louca,
Não queres e nem deixas ser feliz.
Vomitas impropérios, és tão pouca,
Muito menos que pensas; nenhum triz.
Recebo o sopetão que não assusta,
És maquinal vergonha, mas vetusta...

Sofrível sentimento são teus gestos,
Na verdade, pareces bem comigo.
De malícias, delícias, já infestos.
Por isso reconheço tal perigo,
Nós dois, juntos, daremos aos incestos,
Um novo paladar e qualidade,
Seríamos espelhos, na verdade...

Você, minha cachaça predileta

Você, minha cachaça predileta,
Embriagado sigo; sem ressaca...
Minha comida, mesa mais repleta,
Banquete, minha fome nunca aplaca...

Quem me dera pudesse ser poeta,
Escrever tantas coisas numa placa,
E dizer poesia, mais dileta.
Poder gritar seu nome, maritaca,

Avisando aos passantes dessa mata,
Que meu amor me cura e me maltrata...
Poder me recordar de cada beijo,

Você, o meu maior, grande, desejo...
Nesses seus olhos tristes, azulejo...
Uma armadilha; cuida, mas maltrata...

Nossa luta, buscando liberdade

Nossa luta, buscando liberdade,
Tantas vezes depara com vergonhas.
Muitas vezes, no campo e na cidade,
As desilusões surgem, são medonhas...

Quem dera se pudesse ser verdade,
O mundo bem melhor que tanto sonhas...
Um dia, talvez, nunca será tarde...
Poderá ser possível ver risonhas

As mesmas faces, hoje tão sofridas...
Sonhar um impossível sonho, crer!
Combustível maior de nossas vidas.

Juntos, todos, quem sabe eu e você,
Iremos dormir, camas repartidas,
Mas um só sonho, belo de viver!

Soneto com estrambote - Pinguim

Vem andando de fraque, tão solene,
Com passos chaplianos, faz sucesso.
Eu bem sei que, nadando, teu progresso
É maior. Faz que o corpo todo empene,

Por meio dessas asas que, confesso,
Surpreendem. Sugere que m’acene
Quando sei, na verdade se te peço,
Dirás nada, por certo, tutto bene...

Vez em quando, resolves passear.
Umas férias mereces, estou certo.
Mas teimoso, nadando sem parar,

Tu não queres ficar aí, nem perto.
Nas praias cariocas, tanto mar...
Que fazer? Viajar no mar aberto..

Cansado então, do passeio,
Vens bater na minha praia,
És teimoso sim, bem creio
Que tu queres é gandaia...
Não tem outro jeito não...
Na volta, vais d’avião...

Meu canto é socialista, sim senhor.

Meu canto é socialista, sim senhor.
Não quero mais injustas possessões.
Quero o orgulho, poder viver amor,
Sem temer por quaisquer desilusões.

Somos iguais, dizia Nosso Senhor,
Tocando fundo em nossos corações...
Mas o homem, cruel em seu valor,
Traduziu os pecados em perdões...

Sou feliz, tenho tudo que sonhei,
Tenho nos olhos, brilho mais vontade.
Meu reino interior, nele sou rei...

Quero compartilhar felicidade,
Eu assumo, entretanto, o quanto errei...
Nos olhos dos meus filhos, a claridade!

Tanta carnificina, tanta dor...

Tanta carnificina, tanta dor...
Por que ninguém atina para a paz?
Qual motivo, é tão justo, qual valor
Que mereça; me diga se é capaz!

Em qual Deus se baseia o matador?
Dilacerar crianças, satisfaz?
Tanta tortura, tanto desamor.
Qual a liberdade podridão traz?

Uma só raça, somos “sapiens”, homo.
Sapiens: desfigurada tradução...
Me pergunto o porque e, bem mais, como?

A terra dividida: É nosso o chão.
A cada novo crime, tudo somo,
Está em nós, somente, a solução!

Soneto com estrambote - Toda delicadeza do perfume

Toda delicadeza do perfume
Que tua alma divina exala, amada,
Me remete aos jardins do Éden, lume
Das estrelas; clareia minha estrada...

Saborear magnífico de cada
Banquete que ofereces, num costume
Celestial, que tanto atrai, agrada
Ao paladar, aos olhos... Vaga-lume...

A minha fantasia transformada
Na mais bela mulher que Deus criou,
Mais fina porcelana, comtemplada

Por mãos mais delicadas; hoje sou
Tão somente um vazio, quase nada,
Sem ter-te, muito pouco me restou...

Te procuro, então, no sonho,
Nada tenho, nem o chão...
Me persegue, tão medonho,
Fantasma da solidão...

A Tesoura

Quando vestes tão bela vestimenta,
Esqueces da tesoura, que a cortou.
Num vai e volta tira, experimenta,
Acertando, solene, o que sobrou.

Outras vezes, cabelos ‘té da venta,
Vais cortando, deixando o que sobrou.
Quando, enfim o Brasil tornou-se penta,
Seu trabalho ajudou, ‘té fazer gol...

És, portanto, fiel a quem te trata
Com carinho e com arte verdadeira.
Mas, se quem usa abusa e te maltrata,

Tu completas sem pena tal besteira...
Mas, uma coisa falo, és bem ingrata:
Só por não podar língua fofoqueira...

O sapato

Quando vou caminhando pelas ruas,
Muitas vezes me sinto machucado.
As pedras do caminho, quando nuas,
Adentram sem querer, o meu calçado...

Quantas vezes, sofri, dores mais cruas,
Só por culpa de estares apertado.
Com um calo brotando, nem zil luas,
Poderei me inspirar, pobre coitado...

Quando vejo mulheres, tão bonitas,
Calçando um improvável bico fino;
Ao bom Deus, pergunto: como acreditas;

Ser possível tamanho desatino,
Espremendo assim demais, arrebitas
Os cinco pobres dedos, num só pino...

Uirapuru cantou, lembrei de ti.

Uirapuru cantou, lembrei de ti.
Meus olhos são problemas sem remédio.
Chorar não mais, irei longe daqui,
Trocar o sofrimento pelo tédio...

Rimei tantas palavras, me perdi.
Se cada movimento nesse prédio,
Me lembra solidão que não vivi,
Sendo franco, prefiro mais que assédio...

Não gosto do tumulto dessa rua,
Nem quero esse calor feito emboscada.
Eu te desejaria, toda nua,

Depois, que se danasse, quero nada...
Eu fecho a persiana, tapo a lua.
Não quero nem manhã nem madrugada...

No vértice da vida, capotei,

No vértice da vida, capotei,
A queda transformou-se num dilema;
Quem dera, nessa vida fosse rei.
Talvez não conhecesse mais problema...

Por certo; mil desejos sufoquei,
Não há, pois, quem a queda nunca tema,
Nem há quem não me diga que eu errei.
Mas, em cada tropeço, novo lema.

Em cada queda, vivo outra saída,
Lições aprendo, troco de estratégia.
Qual solução? Qualquer que eu elege-a,

Talvez não seja a certa, a preferida.
Vivendo por viver, toda essa vida,
De todas as vitórias, nunca a régia...

Melancolia bate em minha porta

Melancolia bate em minha porta,
Solidão disfarçada em poesia.
Apenas um retrato me transporta,
Para a lembrança amada de Maria...

Bem sei que nada disso mais, importa;
Procuro por teu colo na cercania,
Mas cada vez que tento vejo, morta,
Já qualquer esperança d’outro dia...

Melancolia bate e nem respondo,
Mais quieto, adormecido, me reservo.
Amanhã; renascer, me recompondo,

Em várias fantasias, me conservo.
Meu mundo circulando vai, redondo,
No fim da noite, disso tudo, servo...

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Nasci na batucada dessa vida

Nasci na batucada dessa vida,
Em pleno carnaval, sem esperanças.
A marca dum cigarro foi tingida,
A primeira e mais forte das lembranças...

Minha mãe, colombina noutra lida,
Fazia cada noite mais crianças.
Suas pernas abertas, foi tangida
Feito gado, nas danças, contradanças...

A velha prostituta enfim morreu,
Tuberculose escarra podridão.
Desses dez que pariu, sobreviveu

Um só moleque, feito solidão,
Minha sorte vadia, feito meu.
É que inda vou cuspir nesse teu chão.

Bêbado da saudade de Maria

Bêbado da saudade de Maria,
Vou fechando boteco após boteco.
Noite raia, clareia novo dia,
Os meus passos trocando, paro, breco.

Saberei do conhaque, tanta orgia,
Meus suores e lágrimas, eu seco.
Eu confundo verdade e fantasia,
Nem deu tempo: saí com meu jaleco.

O meu nome estampado, qual crachá,
Denuncia que estou de sobreaviso.
Dane-se, quem irá se preocupar?

Pelas escadas, caio, vou, deslizo;
Pior, essa cachaça é d’amargar!
Morrer agora é tudo que eu preciso!

Minha alegria é faca, corta fundo

Minha alegria é faca, corta fundo.
Dilacera qualquer que tenha medo.
Vagueando, penetra todo o mundo,
Na ponta dessa faca, meu segredo.

Nas marés cheias, enche tudo, inundo...
Faca foi amolada, no degredo.
Temperada a coragem, vagabundo,
Nas tardias da vida, cortou cedo.

Faca vadia, trava guerra à toa.
Embarca na arapuca preparada
Por essas mãos, as mesmas, que canoa

Fizeram virar, tomba marejada.
Inda por cima, fala: faca boa!
Minha alegria, faca enferrujada...

Tercetos - Eu não te quero, apenas te desejo

Eu não te quero, apenas te desejo,
Na minha solidão, guardo teu beijo.
Um retrato deixado na parede...

Tantas vezes sonhei, mas nem recordo,
Apenas navegar, contigo a bordo.
A garrafa demonstra minha sede...

Eu já não mais anseio, nem quero ter,
Tanto me faz ganhar ou te perder.
Quem sabe, poderei me libertar.

Cada momento segue sem depois,
Não quero mais teus beijos, um ou dois.
Talvez Deus permitisse, enfim sonhar...

Trovas - A Minha Amada

Um canto na madrugada,
Traz um gosto de tristeza...
Saudade da minha amada,
Levito nessa beleza...

Silencio sobre tudo,
Não quero falar mais nada...
Vou calado, sigo mudo,
Esperando minha amada...

Não sei falar mais de dor,
Caminho sempre n’estrada,
Estrada do meu amor,
Estrada da minha amada...

Na curva dessa saudade,
Capotei, curva danada...
Vou viver felicidade,
Nas curvas da minha amada...

Trago meu peito cansado,
Minha mão, no peito, atada...
Peito bate des’perado,
Saudades da minha amada...

Menina quero teu colo,
Deixa de ser tão levada;
Vou te deitar neste solo,
Te fazer a minha amada...

Eu nem sei de valentia,
Nem quero cair da escada;
Seja noite ou seja dia,
Eu só quero minha amada...

Vergalhão cortou bem fundo,
Sangria desesperada;
Quer dor maior nesse mundo?
Distância de minha amada...

Vento ventou no telhado,
Chuva caiu na calçada.
Triste sina, triste fado,
Procuro por minha amada...

Toda fumaça que eu trago,
Vai subindo espiralada.
No pulmão faz tanto estrago,
Volta pra mim, minha amada!

Não quero nem mais viver,
Vida vai descontrolada.
Procurando, por você,
Sem encontrar; minha amada...

Quero poder noutro dia,
Estar co’alma lavada.
Oh! Meu Deus, como eu queria,
Saber de ti, minha amada!

Tanta maldade na terra,
Voa então, minha alma alada,
Sobe morro, desce serra,
Procurando a minha amada...

Lavei meus olhos tristonhos,
Na poça d’água parada.
Vou sonhar todos os sonhos,
Até sonhar minha amada...

Amor me pegou de banda,
Escondido, de empreitada;
Lua daqui, de Luanda,
Traz para mim, minha amada...

A moça bonita dança.
Moça da saia rodada;
Coração traz esperança,
Da dança da minha amada...

Pedra faz onda no rio,
Depois de ter sido lançada;
Vou vivendo o desafio
De ondear minha amada...

A safira dest’anel,
Aonde foi encontrada?
Olhei pra terra e pro céu,
Encontrei a minha amada...

Diamante traz riqueza,
Jóia muito procurada;
Mas muito maior beleza,
Nos olhos da minha amada...

No sertão cantando primas,
Tem viola enluarada;
Encontrei todas as rimas,
Nos lábios da minha amada...

O que presta nessa vida,
Nunca foi coisa comprada;
Minha alegria perdida,
Encontrei na minha amada...

Tanta verdura gostosa,
Delas fiz uma salada.
Vida vai maravilhosa,
Nos beijos da minha amada...

Serpenteia minha sorte,
A vida é carta marcada.
Jogo pesado, de porte,
Aposto na minha amada...

Vaso duro não se quebra,
Nem fica a casca arranhada;
Tão lindas, quando requebra,
As ancas da minha amada...

É de Deus a escolhida,
Foi, por ele, abençoada.
Nunca mais quero outra vida,
Nos seios da minha amada...

Canto cantiga de roda,
Samba, bolero e toada.
Planta crescendo na poda,
Quero colher minha amada...

Cantor que canta forró,
Canta xote e embolada;
Nada no mundo é melhor,
Que os braços da minha amada...

Quando cheguei lá de Minas,
“Truce” queijo e até coalhada.
“Truce” coisas tão divinas,
Só num “truce” minha amada...

Da chuva eu sou só um pingo,
Mas você quer trovoada.
Quando choro, esse respingo,
Vai molhar a minha amada...

Toda essa reza que eu rezo,
Na Igreja ou na orada.
Tudo que eu deveras prezo,
Encontro na minha amada...

Na vida perdi o freio,
Capotei numa guinada.
A vida me pôs arreio,
Nas pernas da minha amada...

No circo triste da vida,
Eu perdi a minha entrada.
Só encontrei despedida,
Só me restou minha amada...

Eu sofri tanto, bem sei,
A vida me deu esporada.
Aqui, ao menos sou rei,
No reino da minha amada...

Chora cavaco chorão,
A noite vai embalada.
Vai chorando o coração,
Lágrimas de minha amada...

Dançando xote e baião,
Danço até uma lambada.
Só não danço solidão,
Peço perdão, minha amada...

Errei demais, eu sei bem,
Minha vida é toda errada.
Sem você não sou ninguém,
Me desculpe, minha amada...

Feira boa é a que tem,
Muita coisa variada.
Só não encontro meu bem,
Onde estás, ó minha amada?

Te procurei num castelo,
E não passei da fachada.
Todo dia, então, eu velo,
Na busca da minha amada...

Eu tentei cantar um hino,
Vitrola tá enguiçada.
Quem me dera ser menino,
Para cantar minha amada...

Com varinha de condão,
Eu encontrei minha fada.
Só me restou ilusão,
Encantar a minha amada...

Trabalhei por tanto tempo,
Cavoucando com enxada.
Mas foi tanto contratempo,
Onde “plantei” minha amada?

Já tive tanto revés,
Eta vidinha azarada!
Lavei navio e convés,
O mar levou minha amada...

Mulher ficando nervosa,
Entra muda e sai calada.
Mas feliz, fica bem prosa,
Fala pra mim, minha amada...

Lá na casa que eu morava,
Dizem que é mal assombrada.
Mas era eu quem chorava,
Só por você minha amada...

De tanto amor nessa vida,
Eu a levo endividada.
Vou fazer a despedida,
Já cansei da minha amada!

Meu amor aqui tão só Trovas

Meu amor aqui tão só,
Espero por teu carinho;
Canta triste curió,
Tenta fazer o seu ninho...

No cantar duma graúna,
Encontrei meu bem querer;
É forte como braúna,
O meu amor é você!

Na viola canto primas,
Minhas primas, vou cantar;
Vou brincando com as rimas,
‘Té o tio reclamar!

Sei o gosto da tristeza,
Agostos quase setembro;
Maria foi a beleza,
Que eu encontrei em dezembro...

As marcas do meu passado,
Ficaram no que vivi;
Meu amor foi encontrado,
Jogado no CTI...

Amor que me traz saudade;
Isso digo, e ponho fé,
Doce coceira que arde,
Parece bicho de pé...

Trovas

Vi meu barco na calçada,
O meu carro foi pro mar;
A minha mulher amada,
Vive escondida ao luar...

O que quero sei de cor,
Mas não sei se isso é verdade;
A catinga da Loló,
Apaixonou o compade...

Aninha, quando menina,
Andava sempre fagueira;
Tentava dobrar esquina,
Banho de sol? Na fogueira...

Belinha é muito bacana,
Todo mundo sempre diz;
Eta garota sacana!
Mas bem sabe ser feliz...

Não sou mais que cercania,
Quem me dera ser divisa;
Não consigo ver o dia,
Quero sentir doce brisa...

Poemas. não sei fazer,
De rimas não sei falar;
Meu amor, cadê você?
A procuro no luar...

A lua que brilha aqui,
Não é a mesma de lá;
Pois na terra onde nasci,
Rouba luz do teu olhar...

Quando nasceste, Ritinha,
Toda terra festejou;
Relampeou, de noitinha,
Até Deus comemorou!

Meu amor não tem segredo,
Nem precisa de recado;
Com você perco meu medo,
Coração descompassado...

Num momento infeliz tu me disseste

Num momento infeliz tu me disseste,
Que poderia até, de mim, gostar.
Achei, por um segundo, ser um teste,
Não cria ser possível. Me enganar!

Por horas, dias, meses, sul e leste,
Em todos os lugares; só pensar
Nisso... Hoje percebi que o que fizeste
Fora somente chiste. Devagar,

A vida transformada em maravilhas,
Sonhando sem, ao menos, ter mais medo...
Voando sem ter asas, novas trilhas...

Conhecer, sentir, todo esse segredo!
Naufragar nas mais belas dessas ilhas...
Agora sei, retorno ao meu degredo...

Minha mansidão luta ferozmente

Minha mansidão luta ferozmente
Contra as dores cruéis. Minhas entranhas
Latejando; senil vai minha mente,
Buscando, temerária, tuas manhas.

Em muitas outras horas, fui contente.
O preço: em minhas costas, tantas lanhas...
Por outro lado, sendo continente,
De todas as maneiras, sempre ganhas!

Fingi ser bem mais forte do que creio,
De nada adiantou tanto disfarce,
Não consegui sentir, palpar teu seio,

Somente dar um beijo em tua face...
Quem dera conhecer, tão rico veio.
Talvez soubesse, assim, como te lace...

Contra senso

A podridão do corpo começara,
Sentira o gosto azedo, fecalóide,
As mãos se decompunham, já notara.
Do cérebro porções dum alcalóide

Esparramavam pelo chão... U’a vara,
Logo atravessaria seu mastóide,
Deixando à mostra tudo que almoçara.
Sentia-se zumbi, talvez andróide.

Mas nada de chegar a morte santa,
Redentora de tanto sofrimento.
A cabeça rodando, se levanta;

Cai em seguida. Pútrido, seu mento
Abrira tantas fendas... Ele canta
Incrivelmente, goza co’o tormento!

Estrada empoeirada, tão distante

Estrada empoeirada, tão distante,
Seguindo sempre a esmo, sem chegada.
O rumo que procuro: p’ra adiante,
Para onde irei, nem quero saber nada...

No passado pensei que era gigante,
Mas a vida mostrou como era errada
E cega essa visão toda embaçada.
Percebi, sei que tarde: ela é mutante...

Não quero mais ninguém a minha espera,
Nem pai, nem mãe, amores, sina fado...
As curvas dessa estrada, torpe fera...

Sem ter ninguém nem nada, des’perado...
Coração deu lugar: uma cratera,
Sem teu amor, morrer; rumo traçado!

Soneto com estrambote - Fechadura

Logo que chegas, vindo de onde vens,
Procuras ao entrar, a fechadura...
A chave introduzindo... Parabéns!
Acertaste sim, mesmo noite escura

Não impediu tal glória! Sei que tens
A mansidão divina da brandura...
Mas, irado, ferido nos teus bens
Ou no brio feroz, tal armadura

Demonstra tua raiva sem sentido!
O que fora brandura se transforma,
A mansidão, deixaste pelo olvido...

Com tanta estupidez, de bruta forma,
Tu tentas penetrar, estás perdido,
Pois logo, sem porque, tudo deforma...

Aquele “bravo” sujeito,
Mais calmo, fica besteiro...
Diz, lá no fundo do peito:
Meu reino por um chaveiro!